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fevereiro 03, 2021

JARDIM SEM ANJOS

 

JARDIM SEM ANJOS

Essas flores não têm mais perfume
Esqueça as trovas que ouviu nas noites
Enluaradas em que sonhava com um amor
Que poderia haver entre as janelas do quarto

Olhe bem as camadas que escondem as palavras
Que foram jogadas ao vento na intenção de iludir
As mariposas que vagavam perto das luzes de névoa
Sem pergaminhos para escrever o que ouvia no coração

Sinta o gosto da ferida que foi deixada
No corte que não sangrou porque a pele de cimento
Ainda existe na solidão pintada no vidro
Com as mãos que foram tocadas pela ponte sobre o rio seco

O jardim florido está perdendo as asas de anjo
E as rosas vermelhas estão deixando de ser ouvidas
Porque o vento está soprando na direção do leste
E tentando mostrar ao seu coração que jamais existiram flores no quadro

Talvez o mundo do coração não seja ilusório
E as gotas de suor que escorreram pela sombra
Ainda seja a melhor tatuagem para carimbar a estrela cadente
Que partirá do mundo de sombras que iludiu a madrugada com desamor

Eu sei que ainda vou sorrir durante a chuva que cairá na estrada
Mas o sorriso amargo na minha face é a prova que sairei inteiro
Depois do vendaval que fará sucumbir o jardim sem anjos
Onde só ficará quem realmente se deixar enganar depois do amanhecer

Arnoldo Guimarães dos Santos Pim

fevereiro 02, 2021

DE SAUDADE


 

CHORAR POR DENTRO

 


PEQUENO POEMA DE APÓS CHUVA

 

PEQUENO POEMA DE APÓS CHUVA

Frescor agradecido de capim molhado
Como alguém que chorou
E depois sentiu uma grande, 
uma quase envergonhada alegria
Por ter a vida
continuado...

Mario Quintana
In Baú de Espantos

MEDITAÇÃO SOB A CHUVA



MEDITAÇÃO SOB A CHUVA

Estas águas banharam outras terras,
foram rios e lagos, foram mares,
nos céus flocos de espuma e depois chumbo,
relâmpagos, trovões e depois água.
E, no eterno girar do eterno ciclo,
o céu as verte sobre nós agora.
Como um jardim, uma árvore, uma ave,
a terra, a natureza, aqui, desnudo,
de suas bagas vou colhendo o sumo.
Possa, sob o seu signo, como outrora
e sempre, o estrume redimir-se em flores.
E eu possa, no bebê-las, compreender
a experiência milenar que bebo.
Vento, chuva, relâmpagos — matéria
contemporânea a todas as idades,
passageira de todas as viagens,
moradora de todas as paragens,
possamos compreender que, de ti feitos,
somos cosmopolitas por herança,
somos intemporais, se não na forma,
ao menos na substância.

Anderson Braga Horta
In Marvário (1976)

janeiro 30, 2021

TARDES VAZIAS

 
TARDES VAZIAS

Com o coração dorido
Ainda a taça é uma ternura
Errante em minha mesa
Seu frescor borbulha
É oferta que delira
Embebedar de rosas
Sem romper prismas
Quentes de minha alma.
Em meio às camadas
De terra e de flores
Que ainda sobram
Na memória o cheiro
Das tardes vazias
Sem fantasias murchas
Que jogam no tempo do jamais
Que a alma vislumbra.

O arco-íris do voo dos pássaros
Nesta realidade abre-se
Hoje em paralelas esquecidas
Nos afluentes (re) virados
Humana  lida infértil
Que ainda vê brilhar
Safiras que lançam
Claridades que se impõem

 Iara Pacini

A dor e a saudade...



 "A dor e a saudade
são dois pássaros em voo
tentando alcançar o galho mais alto
do esquecimento..."

£una 

janeiro 28, 2021

CHEIRO DE OUTONO



CHEIRO DE OUTONO 

 Mais uma vez é um verão que nos abandona, 
agonizando num temporal atrasado: 
tranquila a chuva rumoreja, enquanto um cheiro 
amargo e tímido vem do bosque molhado. 

 Na relva pálida a liliácea se retesa 
em meio a grande profusão de cogumelos; 
tem-se a impressão de que se esconde e se retrai o
 nosso vale, ontem ainda imenso e belo. 

 Retrai-se e cheira a timidez e a amargura 
o mundo, com toda a claridade perdida: 
prontos, olhamos o temporal atrasado, 
pois acabou-se o sonho de verão da vida! 

 Hermann Hesse 
In Andares

A CHUVA

 


A CHUVA

Bruscamente a tarde se clariou
Porque já cai a chuva minuciosa.
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que sem dúvidas acontece no passado.

Quem escuta cair há recobrado
O tempo em que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor chamada rosa
E a curiosa cor do vermelho.

Esta chuva que cega os cristais
Alegrará em perdidos arredores
As negras uvas de uma videira certamente

Pátio que já não existe. A molhada
Tarde me trai a voz, a voz desejada,
De meu pai que retorna e que não morreu.

Jorge Luis Borges

AMO VOCÊ

 

AMO VOCÊ

O dia amanheceu chuvoso.
A natureza chora.
Chora também meu coração.
A saudade
que sua ausência me trás,
Aperta-me o peito.
Sufoca em mim a voz
Que teima em querer
Gritar alto e para todos,
o quanto amo você.
Mas o grito fica retido
No vazio da solidão
Em que me encontro.
Resta-me apenas o consolo
De poder molhar meu rosto
Nas águas da chuva
E misturar minhas lágrimas
Às lágrimas da natureza
Deixando-as, juntas, caírem
Fertilizando o solo que nos sustenta.

Marisa Nieri®

janeiro 26, 2021

CANÇÃO DE UM CREPÚSCULO CARICIOSO



CANÇÃO DE UM CREPÚSCULO CARICIOSO

 A tarde expira, serena... 
Adormece em minha mão 
a pena suave, a pena 
com que, na tarde serena,
 vou compondo esta canção. 

 Um casinholo da vila,
 na sombra do entardecer, 
iluminado cintila. 
O movimento da vila 
começa agora a morrer. 

 Vem de longe, dos carreiros,
 a mágoa sentimental 
da canção dos boiadeiros. 
Que doçura nos carreiros, 
ocultos no matagal! 

 Num recôncavo da praia, 
soturno soluça o mar. 
Soluça... A tarde desmaia... 
E o mar no lenço da praia 
limpa os olhos, a chorar... 

 Muito à distância, navios 
que o crepúsculo esfumou,
 vão partindo, fugidios...
 A voz triste dos navios 
diz adeus a quem ficou...

 E a tarde expira, serena... 
Adormece em minha mão 
a pena suave, a pena 
com que, a tarde serena, 
vou compondo esta canção...
 
Ribeiro Couto

NO JARDIM NA PENUMBRA



 NO JARDIM EM PENUMBRA

Na penumbra em que jaz o jardim silencioso
A tarde triste vai morrendo... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.

Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.

Em lugar tão propício à doçura das almas
Ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia das palmas.

E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.

Ribeiro Couto

SONETO DA FIEL INFÂNCIA

 


SONETO DA FIEL INFÂNCIA 

Tudo que em mim foi natural — pobreza,
 Mágoas de infância só, casa vazia, 
Lutos, e pouco pão na pouca mesa —
 Dói na saudade mais que então doía. 

 Da lamparina do meu quarto, acesa 
No pequeno oratório noite e dia, 
Vinha-me a sensação de uma riqueza 
Que no meu sangue de menino ardia. 

 Altas horas, rezando no seu canto, 
Minha mãe muitas vezes soluçava 
E dava-me a beijar não sei que santo. 

 Meu Deus! Mais do que o santo que eu beijava, 
Faz-me falta o cair daquele pranto 
Com que ela junto ao peito me molhava. 

 Ribeiro Couto

ESQUECER

ESQUECER

Longos dias de sonho e de repouso...
Ócio e doçura... Sinto, nestes dias,
Meu corpo amolecer, voluptuoso,
Num desfalecimento de energias.

A ler o meu poeta doloroso
E a fumar, passo as horas fugidias.
Entre um cigarro e um verso vaporoso
Sou todo evocações e nostalgias.

Quando por tudo a claridade morre
E sobre as folhas do jardim doente
A tinta branca do luar escorre,

A minha alma, a mercê de velhas mágoas,
É um pássaro ferido mortalmente
Que vai sendo arrastado pelas águas.
 
Ribeiro Couto 

CHUVA


CHUVA

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! para que falar? Como é suave, brando,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...

Ribeiro Couto
In O Jardim das Confidências.

CANÇÃO DE UM CREPÚSCULO CARICIOSO



CANÇÃO DE UM CREPÚSCULO CARICIOSO

A tarde expira, serena...
Adormece em minha mão
a pena suave, a pena
com que, na tarde serena,
vou compondo esta canção.

Um casinholo da vila,
na sombra do entardecer,
iluminado cintila.
O movimento da vila
começa agora a morrer.

Vem de longe, dos carreiros,
a mágoa sentimental
da canção dos boiadeiros.
Que doçura nos carreiros,
ocultos no matagal!

Ribeiro Couto

A ALEGRIA DA TERRA SOB O AGUACEIRO

 

A ALEGRIA DA TERRA SOB O AGUACEIRO

Do céu cinzento a chuva em fios longos coa ...
Molha-se o parque. Vê, que alegria na terra!
Toada a paisagem bebe a água da chuva boa
E uma bruma sutil entre as árvores erra.
Bom tempo! Quando chove é que é bom tempo ...
Sinto
Que no meu coração, qualquer coisa desperta.
Qualquer coisa ... Talvez um sofrimento extinto.
Talvez mesmo outra vida, uma outra vida incerta ...
Escutando o bater da chuva nos telhados
Tenho um desejo triste, um desejo doente
De viver só, viver entre livros amados,
Numa cidade que imagino vagamente ...
Olho, desencantado, as águas da baía:
No mar, que a chuva torna um pouco mais distante,
Vem fugindo uma vela em demanda no cais.
E de um pontinho muito apagado, lá adiante,
Uma fumaça diz adeus ... “ Não volto mais!...”
Olho de novo o parque. Entre as árvores erra
A bruma leve que as envolve e acaricia ...
A bruma tem a volúpia longa e fria ...
Como que a bruma é o gesto amoroso da terra,
Um gesto mole de desejo e nostalgia,
Para a folhagem sob o aguaceiro macia...

Ribeiro Couto
Melhores Poemas

CAI A CHUVA ABANDONADA


CAI A CHUVA ABANDONADA

Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Vergílio Ferreira,
in 'Conta-Corrente 1'


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Busca
(reginahelena)

Em meio ao som da chuva
ouço o meu coração
batendo na cadência dos meus passos,
arrastando a água...

tudo é inútil, eu sei
e vejo agonizar em mim a esperança.
...e então, mergulho de vez na embriaguez
da mística loucura da saudade.

AO SONO

 


AO SONO 

 Rebanho de ovelhas que lentamente passa 
Uma de cada vez, o som da chuva e o farfalhar 
Das folhas ao vento, abelhas, cascatas e o mar, 
Prados, lenços d’água e o céu que esvoaça; 

Sobre eles divaguei, um por um e ainda estou 
Desperto! Logo os pássaros cantando 
Nas árvores do pomar estarei escutando, 
E o primeiro trinado do cuco que lá pousou. 

 Ontem e nas duas outras noites foi assim Sono! 
Com todos os ardis não te pude receber: 
Poupes-me nesta noite, vem a mim 

 Sem ti, que seria do encanto do alvorecer? 
Vem, barreira entre o dia e a noite, enfim, 
Pai do fresco pensar e do saudável viver!

 William Wordsworth 
in O olho Imóvel pela Força da Harmonia


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