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abril 12, 2021

Chuva



Chuva

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria, 
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois, 
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria, 
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...

Ribeiro Couto 


Agradeço sua visita. 
Volte sempre e comente!



fevereiro 28, 2021

O MAR E O CAIS


 
O MAR E O CAIS

Oh! ressaca dos dias bravos
O mar a investir contra o cais
E as ondas rebentando no alto!
As espumas, a desfolharem-se,
Caem como pétalas brancas ...
Na sua fúria forte, as águas
Deslocam pedras da amaruda.
Venceu o mar! Perdeu o cais!

Oh! ressaca dos dias bravos em nosso peito ...

Ribeiro Couto 
in Melhores Poemas

fevereiro 27, 2021

CHUVA


CHUVA

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...

Ribeiro Couto
São Paulo-1898-1963) 

janeiro 26, 2021

CANÇÃO DE UM CREPÚSCULO CARICIOSO



CANÇÃO DE UM CREPÚSCULO CARICIOSO

 A tarde expira, serena... 
Adormece em minha mão 
a pena suave, a pena 
com que, na tarde serena,
 vou compondo esta canção. 

 Um casinholo da vila,
 na sombra do entardecer, 
iluminado cintila. 
O movimento da vila 
começa agora a morrer. 

 Vem de longe, dos carreiros,
 a mágoa sentimental 
da canção dos boiadeiros. 
Que doçura nos carreiros, 
ocultos no matagal! 

 Num recôncavo da praia, 
soturno soluça o mar. 
Soluça... A tarde desmaia... 
E o mar no lenço da praia 
limpa os olhos, a chorar... 

 Muito à distância, navios 
que o crepúsculo esfumou,
 vão partindo, fugidios...
 A voz triste dos navios 
diz adeus a quem ficou...

 E a tarde expira, serena... 
Adormece em minha mão 
a pena suave, a pena 
com que, a tarde serena, 
vou compondo esta canção...
 
Ribeiro Couto

NO JARDIM NA PENUMBRA



 NO JARDIM EM PENUMBRA

Na penumbra em que jaz o jardim silencioso
A tarde triste vai morrendo... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.

Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.

Em lugar tão propício à doçura das almas
Ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia das palmas.

E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.

Ribeiro Couto

SONETO DA FIEL INFÂNCIA

 


SONETO DA FIEL INFÂNCIA 

Tudo que em mim foi natural — pobreza,
 Mágoas de infância só, casa vazia, 
Lutos, e pouco pão na pouca mesa —
 Dói na saudade mais que então doía. 

 Da lamparina do meu quarto, acesa 
No pequeno oratório noite e dia, 
Vinha-me a sensação de uma riqueza 
Que no meu sangue de menino ardia. 

 Altas horas, rezando no seu canto, 
Minha mãe muitas vezes soluçava 
E dava-me a beijar não sei que santo. 

 Meu Deus! Mais do que o santo que eu beijava, 
Faz-me falta o cair daquele pranto 
Com que ela junto ao peito me molhava. 

 Ribeiro Couto

ESQUECER

ESQUECER

Longos dias de sonho e de repouso...
Ócio e doçura... Sinto, nestes dias,
Meu corpo amolecer, voluptuoso,
Num desfalecimento de energias.

A ler o meu poeta doloroso
E a fumar, passo as horas fugidias.
Entre um cigarro e um verso vaporoso
Sou todo evocações e nostalgias.

Quando por tudo a claridade morre
E sobre as folhas do jardim doente
A tinta branca do luar escorre,

A minha alma, a mercê de velhas mágoas,
É um pássaro ferido mortalmente
Que vai sendo arrastado pelas águas.
 
Ribeiro Couto 

CHUVA


CHUVA

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! para que falar? Como é suave, brando,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...

Ribeiro Couto
In O Jardim das Confidências.

CANÇÃO DE UM CREPÚSCULO CARICIOSO



CANÇÃO DE UM CREPÚSCULO CARICIOSO

A tarde expira, serena...
Adormece em minha mão
a pena suave, a pena
com que, na tarde serena,
vou compondo esta canção.

Um casinholo da vila,
na sombra do entardecer,
iluminado cintila.
O movimento da vila
começa agora a morrer.

Vem de longe, dos carreiros,
a mágoa sentimental
da canção dos boiadeiros.
Que doçura nos carreiros,
ocultos no matagal!

Ribeiro Couto

A ALEGRIA DA TERRA SOB O AGUACEIRO

 

A ALEGRIA DA TERRA SOB O AGUACEIRO

Do céu cinzento a chuva em fios longos coa ...
Molha-se o parque. Vê, que alegria na terra!
Toada a paisagem bebe a água da chuva boa
E uma bruma sutil entre as árvores erra.
Bom tempo! Quando chove é que é bom tempo ...
Sinto
Que no meu coração, qualquer coisa desperta.
Qualquer coisa ... Talvez um sofrimento extinto.
Talvez mesmo outra vida, uma outra vida incerta ...
Escutando o bater da chuva nos telhados
Tenho um desejo triste, um desejo doente
De viver só, viver entre livros amados,
Numa cidade que imagino vagamente ...
Olho, desencantado, as águas da baía:
No mar, que a chuva torna um pouco mais distante,
Vem fugindo uma vela em demanda no cais.
E de um pontinho muito apagado, lá adiante,
Uma fumaça diz adeus ... “ Não volto mais!...”
Olho de novo o parque. Entre as árvores erra
A bruma leve que as envolve e acaricia ...
A bruma tem a volúpia longa e fria ...
Como que a bruma é o gesto amoroso da terra,
Um gesto mole de desejo e nostalgia,
Para a folhagem sob o aguaceiro macia...

Ribeiro Couto
Melhores Poemas