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março 04, 2021

FESTA NOTURNA




O sol
vestiu o entardecer
com rendas douradas,
violetas e azuis...
Para a festa da noite,
a lua cheia
transformou-se
em prateada medalha
e enfeitou
o peito redondo do infinito...

Adélia Maria Woellner 


Agradeço sua visita. 
Volte sempre e comente!

BRANCA NOITE DE LUAR




Mal o dia se esgueira e foge entre as árvores do crepúsculo,
insinuam-se os seus finais entre as dúvidas do nascer da noite.
Pára o rio e sua viagem. Cessam as águas a sua voz.
Cantos de pássaros interrompem-se e tombam nos ouvidos da solidão.
Póstumos bois adormecem no relvado as suas sombras,
e um gesto final do ocaso conduz a ovelha derradeira.
Entre os rebanhos recolhidos recolheu-se a tarde
e, enquanto as distâncias se estiram brancamente,
lúcido vinho vai a terra embebedando:
o chão é claro sonho e firmamento.
Verte o céu a sua azul antiguidade
sobre as formas, as ausências e os corações dos homens,
e a lua vai abrindo em leve solo nas alturas
imaginativas ruas de silêncio, de outrora,
de alva tristeza e amoroso pensamento.


Abgar Renault  

Agradeço sua visita. 
Volte sempre e comente!

março 03, 2021

SEM TÍTULO

 


SEM TÍTULO

Do fundo do crepúsculo,
O vento tombou como uma ave ferida
Sobre os tufos e as palmas verdes
do dormente jardim.

Bateu, raivoso, as possantes asas,
rodopiou exasperado
entre as frondes em pânico.
E miraculosamente recompondo
o perdido equilíbrio,
em brusco, violento arranco
ergueu voo outra vez para o espaço sem fim...

Tasso da Silveira
De: Contemplação do Eterno, 1952


TORRE

 
 TORRE

          Os ventos altos
         vindos das distâncias perdidas
         bateram a torre do meu corpo.
         Bateram a torre esguia e longa
         e puíram-lhe os ornamentos raros,
         desfiguraram-lhe a feição de beleza,
         como o mar milenário
         desastou as arestas vivas dos rochedos
         imemoriais.
         Não apagaram, porém, a lâmpada
         solitária e serena
         que ardia no silêncio...
         e os meus olhos, rosáceas claras, abertas
         para a paisagem
         do teu ser,
         ficaram coando sempre o clarão suave e leve,
         ficaram adolescentes
         para sempre...

Tasso da Silveira
De: Alegria do Mundo, 1940



EFEITO DE LUZ

 

         Sob o silêncio que flutua,
         no crepúsculo
         a angra é um espelho de cristal.
         De súbito, porém, rompendo a superfície polida,
         como um brusco
         reflexo,
         o peixe prateado e liso
         pula no ar
         em esplêndido, caracoleia no crepúsculo
         e retomba no seio da água adormecida,
        que, sonhando, o supõe numa chispa de luar...

 Tasso da Silveira
 (As Imagens Acesas, 1928)

A quatro mãos...

 

A quatro mãos fecundo o poema.
É preciso mais.
Circula sangue vermelho em minha veia poética.
Quebrei as molduras.
Sou da estirpe dos que pegam o mundo
com a esquerda - punhos cerrados -,
 e o vestem de belezas futuras,
edifícios do amanhã,
que não encontro, mas construo.

Moisés Augusto Gonçalves,
in Fragmentos Impertinentes (2013)

fevereiro 28, 2021

UM POR DE SOL

 

UM POR DE SOL

A natureza se transforma lenta!
Fica o ocaso mais rubro! Mais bonito!...
O sol, na sua marcha sonolenta,
Mergulha na janela do infinito!

Tudo é silente! Nem sequer um grito
Se escuta pela tarde pardacenta...
O mundo todo torna-se esquisito
E a noite desce plácida e friorenta!...

O sol com os raios seus já sem fulgores,
No desespero dos seus estertores,
Solta um beijo de luz, tinge o arrebol!...

O poeta fica no delírio imerso!
Contemplando os mistérios do universo
No quadro divinal de um por de sol!

Jansen Filho
In: Obras Completas


ROSA AMARELA

 

ROSA AMARELA

É uma rosa amarela.
Uma rosa de verão.
Sempre uma rosa em botão
estava posta à janela.
Quem mora naquela casa
certamente que sabia
quanto essa rosa em botão,
seja branca ou amarela,
perfuma todo o verão.

Eugénio de Andrade

TU ÉS A ESPERANÇA

 

TU ÉS A ESPERANÇA

Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade,
In: 'As Mãos e os Frutos' 


DESENCANTO

 

DESENCANTO

Muitas vezes cantei nos tempos idos
Acalentando sonhos de ventura:
Então da lira a voz suave e pura
Era-me um gozo d’alma e dos sentidos.

Hoje vejo esses sonhos convertidos
Num acervo de penas e amargura,
E percorro da vida a estrada escura
Recalcando no peito os meus gemidos.

E se tento cantar como remédio
Às minhas mágoas, ao sombrio tédio
Que lentamente as forças me quebranta,

Os sons que arranco à pobre lira agora
Mais parecem soluços de quem chora
Do que a doce toada de quem canta.

Pe. Antônio Tomaz 

SINO



SINO

Sino, coração da aldeia;
Coração, sino da gente;
um a sentir quando bate
outro a bater quando sente.

António Correia de Oliveira 

PÉS



PÉS

Conheço minhas pegadas, de tanto ir e vir.
Às vezes pisam fundo
como carregassem o peso do mundo;
às vezes ficam amassadas
sob o descuido das outras pegadas.
Sobre elas, a lua nova desdobra sua saia
em cena de nudez no chão da praia.
Só perco meus passos na maré cheia:
essa mania do mar de tirar seus sapatos sobre a areia.
Conheço bem minhas pegadas.
Sou capaz de identificá-la em qualquer lugar.
Se ao menos eu soubesse aonde vão me levar... 

Flora Figueiredo
In Chão de Vento 

LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS



LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
 
O tempo fora de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
_dura eternamente
enquanto vivo
 
E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

Ferreira Gullar,
in Muitas Vozes

ENVELHECER



 ENVELHECER

Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Mario Quintana
In: Sapato Florido

NÓS



NÓS

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos,

e que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto
hão de falar os teus cabelos brancos.

Guilherme de Almeida

MOINHO



MOINHO

São as águas
da delicadeza
que movem o mundo.

Uma palavra amorosa,
um gesto, 
uma carícia,
fazem a Terra
mais azul
e mais leve,
trazem à pele
a memória mais antiga:

Também somos um grão
de estrela e de infinito.

Roseana Murray,
in Manual da Delicadeza 

O MAR E O CAIS


 
O MAR E O CAIS

Oh! ressaca dos dias bravos
O mar a investir contra o cais
E as ondas rebentando no alto!
As espumas, a desfolharem-se,
Caem como pétalas brancas ...
Na sua fúria forte, as águas
Deslocam pedras da amaruda.
Venceu o mar! Perdeu o cais!

Oh! ressaca dos dias bravos em nosso peito ...

Ribeiro Couto 
in Melhores Poemas

fevereiro 27, 2021

OS RIOS

 


OS RIOS

Magoados, ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente,

Desejais regressar... Mas, leito em fora,
Correis... E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre a nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança...
Pois no vosso clamor, que a sombra invade,
No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade
De todos os que vivem de esperança,
De todos os que morrem de saudade...

Olavo Bilac

SÓ TU




SÓ TU

Dos lábios que me beijaram,
Dos braços que me abraçaram,
Já não me lembro, nem sei...
São tantas as que me amaram!
São tantas as que eu amei!

Mas tu - que rude contraste! –
Tu, que jamais me beijaste,
Tu, que jamais abracei,
Só tu, nest'alma, ficaste,
De todas as que eu amei.

Paulo Setúbal

Eis o que eu aprendi



Eis o que eu aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes:
afinal tudo são luzes
e a gente se acende é
nos outros.
A vida é um fogo,
nós somos suas breves
incandescências.

Mia Couto 
em Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra.