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março 20, 2009

SOBRA



SOBRA
(Genaura Tormin)

Os desejos não latejam,
Não queimam,
Não ouriçam fantasias mortas.

Apenas uma
Parede branca,
Um elo solto,
Um laço roto
E uma lembrança gasta.

ISSO E VIDA!


ISSO E VIDA!
(Genaura Tormin)

Vida
Cheia de percalços,
Versos e reversos,
Muitos obstáculos.

Muitos desafios
Fazem-nos guerreiros,
Equilibristas de um circo
Chamado destino.

Estamos sempre a cozer,
Remendar falhas,
Cerzir buracos.

Vida
É uma colcha de retalhos.
Às vezes de um colorido vivo...
Outras, matizados,
Desbotados,
Envelhecidos.

Momentos
Sonhados, queridos,
Mas também sofridos,
Engastados no frio silêncio
Que arqueja mórbido, cansado...

EVIDÊNCIA



EVIDÊNCIA
(Genaura Tormin)

No silêncio,
Lamentos tardios
E escusas do que se foi.

O cérebro confunde
Os desejos esquecidos.
O tempo está parado,
O vento não encanta,
Como outrora,
Porque as flores
Já não exalam perfumes.

Não há espera...
Ela não é necessária.
Os dias são normais.
O querer se foi
Com o entardecer
Nas chuvas de março.

Mesmo assim,
Eu sinto frio.
Tudo está tão só.
No silêncio,
As respostas de perguntas
Feitas ao nada.

COMEÇO DO FIM


COMEÇO DO FIM
(Genaura Tormin)

O tempo está inerte,
O sorriso não vem
E pulsa descontrolado
O coração cansado.

Não há vida no ar,
Nem espera,
Porque é o limite da hora,
O começo do fim.

O querer morreu.
Esfacelado está o sentimento
No vazio do nada.
No silêncio,
Apenas
Uma lágrima de mulher.

POETA


POETA
(Genaura Tormin)

Ser poeta,
É viver todos os momentos,
Cantar sentimentos,
Ter sempre “olhos de primeira vez”.

É voar
Nas caudas dos cometas.
É ser dono das estrelas,
Da natureza,
Do infinito,
E ao mesmo tempo,
Não ser dono de nada.

Ser poeta,
É ser METAcoração,
Sentir gosto no sofrer,
Amar a solidão.

Ser poeta,
É conversar com a chuva.
É ser louco ou lúcido
Quando precisar.

É não ter limites,
Driblar barreiras,
Ultrapassar divisas,
Alar o mundo feito borboletas.

Ser poeta,
É deixar rolar o sonho
Maior do que a estrela.

AGONIA MUDA



AGONIA MUDA
(Genaura Tormin)

Um tédio ambulante caminha pelo quarto,
Impregna o ar que circula,
Escorre pelas paredes solitárias.

Em tudo,
Um gosto amargo de dor.
Pasmada, permaneço imóvel.
Em cacos,
Desfaz-se o sentimento.
Indômita, ainda tento resistir.

Na tela indolor do tempo,
Não há bolo de despedida,
Apenas lágrimas que molham
Meu rosto assombrado,
Desenhado na mente fragilizada.

O silêncio se faz
Em súplicas inaudíveis.
E o cutelo da morte
Ameaça golpear-me a alma,
Matar o que restou de mim.

Perdidos,
Estarão os decretos do amor,
As confidências do que sou,
Do que fui...
Tudo,
Tão precoce!

Não há clemência,
Para tão dura sentença.
Agonizam em mim
Os estertores do fim.
Nem mais sei quem sou.

SEM SOLUÇÃO


SEM SOLUÇÃO
(Genaura Tormin)

Brinquedo quebrado,
Imagem esquecida,
No céu,
Ao léu,
Na estrada dolorida
Desta ingrata vida.

Momentos roubados,
Acalentados
No peito da agonia.

Fim da estrada,
Porta fechada,
Noite perdida,
Sem saída,
Sem prospectos,
Só solidão.

Eis-me de novo
A esperar sempre,
Sem solução.

POEMA TRISTE


POEMA TRISTE
(Genaura Tormin)

Quero fazer um poema triste.
Que não fale de amor,
Nem de festa,
Nem de flores.

Quero falar de mim.
Desta solidão,
Jeito único,
De postura estática,
Interminável,
Irreversível.
Deste calafrio
De ossos em desuso.

Quero falar
Deste sufoco no peito,
Sorriso sem jeito,
Impotência que cerceia,
Feito peias
Ou sereias.

Amarras
Que escravizam,
Matam
Ou sublimam,
Fazendo incursões ao infinito,
Melhorando este meu espírito,
Para bailar
Noutras fantasias.

REFÉM DE MIM MESMA


REFÉM DE MIM MESMA
(Genaura Tormin)

Encolhidos em mim,
Jazem as tristezas,
Os amores todos,
Os restos de afeto,
De aconchego, de ternura...

No meu casulo,
Minhas saudades
Abrandam e abrasam
Os desejos refreados,
Ainda molhados de sonhos.

As pedras feriram-me os pés!
Os laços foram desfeitos.
A caminhada revela
A fotografia singela
De um corpo mutilado,
Um coração machucado
E uma bandeira a defender.

Agiganta-se a fé
Nos credos que professo.
De aço me revisto inteira.
Sou refém de mim mesma.
Um soldado aguerrido
À frente da trincheira.

NESGAS DE SAUDADE


NESGAS DE SAUDADE
(Genaura Tormin)

Quanta saudade daquele tempo!
Dos verdes anos lá na fazenda...
Do sol nascendo na serra,
Qual bola de fogo,
Dissipando a escuridão.
O mugido do gado,
O copo de leite no curral...
Ah, quanta saudade!

E o dia da pamonhada,
Dos mutirões...
Todos ouriçados,
Parentes e vizinhos,
Amigos aos punhados.

Verdes campos.
Natureza em festa,
Onde as gotas de orvalho tremulavam
Nas cores do arco-íris,
Aos albores da aurora,
Orquestrada pela passarinhada.

As espigas de milho,
Feito bonecas de cabelos ruivos,
Ao açoite do vento,
Dançavam no verde salão do milharal,
Regidas pelo alarido das maritacas.
Era uma tela pintada nas cores da esperança,
Por isso era tanta bonança...

Laboriosos,
Todos compartilhavam alegres, festivos,
Cantando modas de viola,
Enquanto preparavam as roliças pamonhas,
De doce, de sal,
À moda, com lingüiça, pimenta e queijo...
O paladar aflorava o apetite,
Com o cafezinho quente,
Torrado na roça e moído na hora,
Do jeito lá do sertão.

Quanta simplicidade,
Quanta vida!
Quanta solidariedade
Capaz de aumentar afeto,
Enflorar corações
No laço gostoso da amizade.

COLORAÇÃO



COLORAÇÃO
(Genaura Tormin)

O dia chegara colorido,
E foi tão bonito!
O sol brincava de esconder-se nas colinas.
Tudo era de “faz-de-conta”.

Vi chegar a luz,
Chegarem as nuvens
Com embrulhos tamanhos,
Pendurando-os nas paredes do dia.

A alegria viera junto.
Gritei tão alto,
Tão alto,
Que me tornei em eco.

O céu partira-se
Em pedacinhos curtos,
Que aos poucos formara um todo
A que chamei de AMOR.

Em festa,
Os pensamentos dançavam,
E, na fantasia,
O mundo era fraterno.

Brinquei com a roupagem da tarde,
Esmaecida em belo arco-íris.
Descobri caminhos pintados,
Sorrisos escancarados,
E vi que o pássaro molhado
Cantou feliz,
Quando a noite chegou.

MEDITANDO



MEDITANDO
(Genaura Tormin)

Dia comprido,
Sem sol,
Sem flores,
Sem amores.

Frio no tempo,
Cansaço,
Loucura,
E na alma,
O muito que apavora.

Em tudo,
A saudade que queima,
A lâmina que fere,
O frio que aumenta,
A lágrima que cai
E a dor do irreversível.

março 19, 2009

RECONSTRUÇÃO



RECONSTRUÇÃO
(Genaura Tormin)

Desmorona o castelo,
Esfacela-se a vida!
O querer arqueja no tempo.
Há um gosto de morte no ar.

Dos escombros
Emerge um coração,
Reconstrói a obra,
Dá formas,
Essência
E vida.

Os olhos brilham,
O peito pulsa,
E a fêmea aparece,
Rebelde,
Ouriçada,
No cio,
Conquistada.

De novo,
O amor se vai,
A mágoa fica,
A vida passa.

Reconstruir
É a profissão,
Ainda que o castelo
Não tenha teto.

NOVOS CICLOS


NOVOS CICLOS
(Genaura Tormin)

Etapa finda!
Passou!
Porta fechada.
Ciclo encerrado.
Esqueça!
A ordem é seguir adiante,
Não chorar o leite derramado.

Sofrer pra quê?
Deixe que o novo aconteça!
Abra espaço,
Prepare a mente!
Seja contente!

Cresça e apareça
Firme e forte!
Outra empreitada.
A vida é um jogo!
Não se ganha sempre.

A perda enrigece
A couraça da coragem,
E o sofrimento
Fortalece o equilíbrio
Para outros afazeres,
Outros amores,
Novos ciclos,
Vida nova!

VULTO DE MULHER


VULTO DE MULHER
(Genaura Tormin)

Em tudo que fiz
Deixei um pouco de mim:
Um sorriso,
Um gesto,
Um olhar...

Não fiz muito,
Eu sei.
Mas,
Os poucos fragmentos
Ecoarão no ar,
Cantando a saudade
E o meu jeito de amar.

Por isso,
Serei tão simples
E partirei tão sutil,
Tão sozinha,
Que no silêncio,
Serei,
Apenas,
Um vulto de mulher.

DESINTEGRAÇÃO



DESINTEGRAÇÃO
(Genaura Tormin)

Sou o linguajar mudo
Dos que já não podem falar.
Sou parte dos que olham sem pedir.

Sou a desintegração
Brincando de ninar.
Sou o sentimento que não persistiu
Nos longos braços da espera.

Sou os gritos sem eco
No desconexo
De uma vida inteira.

MENSAGEM


MENSAGEM
(Genaura Tormin

Nos muros da vida
pichei a mensagem,
detalhei a imagem,
rasguei preconceito
e despi a alma.

Nos muros de mim,
enfrentei a navalha,
venci a batalha,
ergui a medalha
e me tornei campeã.

O Mar e a Rocha





O mar se entrega à rocha sem receios
e a cobre com espuma virginal.
E lhe acarinha todos os permeios,
e a ama, como nunca amou igual.

Lhe conta dos seus mais sutis anseios,
lhe fala desse amor, já outonal...
E a cerca com seus mil e um meneios...
E lhe oferece todo o seu caudal.

Porém, sempre centrada em sua essência,
ela não se permite a experiência
de se entregar aos braços desse amor.

E perde um oceano de venturas,
e mais e mais conhece as amarguras,
de quem jamais permite su'alma expor!


- Patrícia Neme -

ARQUITETA DE MIM


ARQUITETA DE MIM
(Genaura Tormin)

Vou reinventar a vida!
Fazer consertos,
aplicar remendos.
Prenha estou de disfarces
e esgueiram-me pelos poros
a plangência do tempo,
restos de batalhas
que se reiniciam sempre.

A incoerência dos retalhos
fragmentam-se pelos dias.
Recolho os estilhaços.
Sou enigma,
sou incógnita no existir!
Fabrico fantasias
e metáforas.

março 18, 2009

ABA DA SERRA


Tudo em ti me fascina!
O Sol que te queima, a chuva que te renova.
A alegria da passarada ao amanhecer,
e a melancólica despedida ao fim do dia.

Tuas árvores contam histórias de mim,
que só tu conheces, e os teus riachos
cantarolam as minhas saudades.

Cada folha que cai, cada ramo que nasce,
renovam o meu amor por ti,
e me levam de volta ao meu mundo.

Amo teu solo... O solo que me viu nascer.
Sou parte de ti. Tua composição está em mim,
entranhada na minha pele e em minha alma.

Onde quer que eu esteja, é em ti que estou!
Ainda que eu vá ao fim do mundo,
é em ti que eu viverei para sempre.

Regina Helena