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abril 16, 2021

Não podemos atingir...


Não podemos atingir a
aurora sem passar pela noite.

Kahlil Gibran





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abril 12, 2021

Chuva



Chuva

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria, 
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois, 
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria, 
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...

Ribeiro Couto 


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abril 03, 2021

Solidão



Solidão
(Juan Ramón Jiménez)

Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário!

Juan Ramón Jiménez,
in "Diario de Un Poeta Reciencasado"



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abril 01, 2021

A esperança não é a última...



A esperança não é a última 
que morre: é a primeira 
a nascer quando julgamos que 
está tudo perdido.

(Hayede)


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março 31, 2021

Devora-me a palavra...



Devorava-me a palavra não dita. 
Havia um beco escuro, 
acabando com as minhas certezas.

Ana Sandra


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março 30, 2021

Ando tão presa...


Ando tão presa que 
as asas gritam de dor.

Ana Sandra



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março 16, 2021

A solidão era eterna...



A solidão era eterna
e o silêncio inacabável.
Detive-me com uma árvore
e ouvi falar as árvores.

Juan Ramón Jiménez


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Quando eu estiver com as raízes...


Quando eu estiver com as raízes
chama-me com tua voz.
Irá parecer-me que entra
a tremer a luz do sol.

Juan Ramón Jiménez


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março 15, 2021

Eu não voltarei...



Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.
Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.

Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.

E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.

Juan Ramón Jiménez


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Algumas flores...



Algumas flores
teimam em viver
apesar do peso
apesar da morte
apesar de algumas
que teimam em morrer
apesar de tudo

Alice Ruiz


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março 14, 2021

TODAS AS ROSAS...



Todas as rosas são a mesma rosa,
amor!, a única rosa;
e tudo está contido nela,
breve imagem do mundo,
amor!, a única rosa.

Juan Ramón Jiménez

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ESQUECI TEU ROSTO



...esqueci teu rosto!
Por um breve momento,
esqueci teu rosto.

A serenidade do teu semblante,
o brilho do teu olhar,
a mansidão do teu falar.

esqueci teu rosto
e entrei em pânico!

Impossível viver
sem a nitidez da tua lembrança!

Mas uma luz se acendeu
e tudo voltou!

- a visão de um anjo,
que  nos guiou na infância
e assim permanece, 
apesar dos anos!

Regina Helena


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março 13, 2021

O POEMA DEVE SER COMO...


O poema deve ser como a estrela que
é um mundo e parece um diamante.

Juan Ramón Jiménez


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ARCO-ÍRIS



ARCO-ÍRIS

Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:

"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."

De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.

Olegário Mariano,
em Canto da Minha Terra (1930).



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ARAMES


ARAMES

Minha poesia é cheia de lugares comuns
Com alguns quadros espalhados
Dias quase sempre nublados
Tijolos comuns assentados

Ela navega bem longe da filosofia
Pega algum violão emprestado
Às vezes sorri, às vezes chora
Às vezes tenho vontade de ir embora

De caminhar mundo a fora
Pegar carona numa música
Que me faça bem ao ouvir

Minha poesia é como folha solta no vento
Rasgada pelos arames farpados
Por muros que escondem o outro lado

Arnoldo Pimentel


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VOZ DE OUTONO

 
Voz de Outono 
(Antero de Quental) 

Ouve tu, meu cansado coração, 
O que te diz a voz da Natureza:
 — «Mais te valera, nú e sem defesa, 
Ter nascido em aspérrima soidão, 

 Ter gemido, ainda infante, sobre o chão 
Frio e cruel da mais cruel deveza, 
Do que embalar-te a Fada da Beleza, 
Como embalou, no berço da Ilusão!

 Mais valera à tua alma visionária 
Silenciosa e triste ter passado 
Por entre o mundo hostil e a turba vária, 

 (Sem ver uma só flor, das mil, que amaste) 
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado 
Os sonhos ideais que tu sonhaste!» 

— Antero de Quental, 
em "Sonetos"


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março 12, 2021

A NOITE


A NOITE
(Julia da Costa)

Brilha o céu, mas em vão soluça de brada
A terra ansiosa, com pueril receio!
É densa a treva; nessa paz calada
Funda tristeza nos oprime o seio!

Tudo fenece, embaixo da orvalhada
Repousa o campo de perfumes cheio!
Negro é o mar, a floresta sossegada,
Dormem as aves da espessura em meio!

Embalde a noite traiçoeira e linda
Enche de encanto os bosques e atalhos,
E, enquanto de fulgor o espaço alinda,

Seu manto enfeita de gentis orvalhos:
Mentem os ermos na amplidão infinda!
Mentem as flores a tremer nos galhos!


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LUNAR


LUNAR
(Mário Quintana)

As casas cerraram seus milhares de pálpebras.
As ruas pouco a pouco deixaram de andar.
Só a lua multiplicou-se em todos os poços e poças.
Tudo está sob a encantação lunar...

E que importa se uns nossos artefatos
lá conseguiram afinal chegar?
Fiquem armando os sábios seus bodoques:
a própria lua tem sua usina de luar...

E mesmo o cão que está ladrando agora
é mais humano do que todas as máquinas.
Sinto-me artificial com esta esferográfica.

Não tanto... Alguém me há de ler com um meio sorriso
cúmplice... Deixo pena e papel... E, num feitiço antigo,
à luz da lua inteiramente me luarizo...


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NOTURNO

NOTURNO
(Antero de Quental)

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!


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O CONSELHO DAS ÁRVORES


O CONSELHO DAS ÁRVORES
(Olegário Mariano)

Sofro, luz dos meus olhos, quando dizes
Que a vida não te alenta nem conforta.
Olha o exemplo das árvores felizes
Dentro da solidão da noite morta.

Que lhes importa a dor, que lhes importa
O drama que há no fundo das raízes?
Não sentem quando o vento os ramos corta
E as folhas leva em várias diretrizes?

Que lhes importa a maldição do outono
E os dedos envolventes da garoa,
Se dão sombra às taperas no abandono?!...

Levanta os braços para o firmamento
E canta a vida porque a vida é boa
Mesmo esmagada pelo sofrimento.


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