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janeiro 09, 2021

Cheiro de chuva



Cheiro de chuva, o vento canta... O céu se esconde...
Janelas guardam seu sorriso... A rua cala.
Portões fechados, raio irado... E não sei onde,
mansa viola, de saudade, à alma fala.

Ruge o trovão... Quem chamará? Ninguém responde...
Lágrimas, tantas... Na vidraça lá da sala.
Folhas correndo, a brincar de esconde-esconde...
Estranha tarde, que a viola, terna, embala.

Agora há pouco havia sonhos de verão...
Quem transformou-os nessa plúmbea solidão...
Por qual desdita retirou-se o sol de mim?

Ninguém o fez, responde a voz da consciência.
Ele partiu... E não suportas sua ausência...
E de tristeza, vês o mundo escuro, assim!

- Patrícia Neme -

SONHOS


SONHOS

A noite... A lua... Minh’alma está inquieta...
Meu eu, candente, é vida a despertar.
Sufoco a fêmea... Liberto a poeta,
pra versejar o que não sei calar.

Eu quero o abraço que me entranhe em ti,
quero teu corpo a recobrir o meu;
quero o delírio, que jamais senti,
na razão plena do teu apogeu.

Quero teu sol no mar do meu desejo,
qual fora o ocaso, em seu final arquejo...
Fusão suprema de um amor sem fim.

A noite... A lua... Sonhos... Madrugada...
Olho ao redor... E não te encontro... Nada...
Findou o verso que eu teci pra mim.

- Patrícia Neme -

janeiro 08, 2021

Fui Feliz






FUI FELIZ
(Genaura Tormin)

Imagens guardadas,
Perpetuadas em fotografias.
Histórias de uma vida!
Registros já amarelados,
De lembranças vividas.

Amores, sucessos,
Dificuldades e procelas,
Marcos construtores,
Que me abriram tantas cancelas.

De muitos papéis fui atriz.
E se tivesse que partir agora,
Não lamentaria nada que fiz.
Porque, simplesmente,
FUI FELIZ!

"Quando a gente gosta, a gente começa emprestando um livro, depois um casaco, um guarda-chuva, até que somos mais emprestados do que devolvidos. Gostar é não devolver, é se endividar de lembranças." Fabricio Carpinejar

janeiro 07, 2021

Anota aí

"Anota aí para seu futuro: desapegar das pessoas, se importar menos, não se abalar por nada nem ninguém. Correr atrás daquilo que faça seu coração vibrar, ficar perto de quem te quer bem. Correr atrás dos seus sonhos, se amar mais. Esquecer tudo aquilo que te faça mal."

Caio Fernando Abreu

NOITE SONORA

NOITE SONORA

Anoiteceu. Pelas montanhas veio
Lentamente o crepúsculo caindo ...
O céu, redondo e claro como um seio,
Ficou, de lindo que era, inda mais lindo.

O vale abriu-se em pirilampos cheio,
Luzindo aqui, e ali tremeluzindo ...
No regaço da treva, úmido e feio,
A natureza adormeceu sorrindo ...

As cigarras, na sombra, se calaram:
As árvores no bosque farfalharam
Na esperança de ouvi-Ias e de vê-las.

Caiu de todo a noite quieta ... Agora,
O céu parece uma árvore sonora
De cigarras cantando nas estrelas ...


Olegário Mariano
em Últimas cigarras (1920)

novembro 13, 2016

É noite em teu jardim, Mãe...




Pouca memória.
Tão clara e doída tanta.
Foi recente.
Mas tanto tempo faz que se foi.
Partiu em manhã de chuva.
Minha mãe partiu.
O único momento em que não se repartiu.
A sua morte não repartiu.

Disse um dia:
viver é um jardim precário.
Mas vejo no meu jardim
a eternidade do jasmim.
Porque é belo e eterno.
E porque é belo o jardim.

Sim! O dia amanhece.
Todos os dias.
Por trás dos montes
que vejo de teu jardim.
E toda manhã
o vizinho passa em frente da casa
e não te acena mais.
nunca mais.
Acena para o jardim vazio,
por hábito, medo da morte, espanto.
E pela luz do dia
que ainda freme
de teu canto.

E mesmo assim
é noite em teu jardim.
Por mais que amanheça,
por mais que amanheça.

Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

junho 19, 2015

DESMERECIDA


DESMERECIDA
(Rogério Camargo)

Era uma flor tão simples, coitadinha,
que até nem merecia, lá pensava,
com seus botões, enquanto abotoava
a timidez com que de longe vinha,

nem merecia o olhar de quem notava
presença dela longe da rainha,
da rosa esplendorosa que reinava
feito o jardim nada além dela tinha.

Era uma flor que se acanhava inteira
e se do sol não toda se escondia
era porque morrer não gostaria.

Passei por ela e, não por brincadeira,
sorri-lhe o que melhor sorrir consigo,
que é quando o lá de fora está comigo.

OS CAVALOS DO TEMPO



OS CAVALOS DO TEMPO

Os cavalos do Tempo são de vento.
Têm músculos de vento,
nervos de vento, patas de vento, crinas de vento.

Perenemente em surda galopada,
passam brancos e puros
por estradas de sonho e esquecimento.

Os cavalos do Tempo vão correndo,
vêm correndo de origens insondáveis,
e a um abismo absoluto vão rumando.

Passam puros e brancos, livres, límpidos,
No indescontínuo, imemorial esforço.
Ah! São o eterno atravessando o efêmero:
levam sombras divinas sobre o dorso...

Tasso da Silveira
In: 'Regresso à Origem'

junho 13, 2015

EMBLEMA


EMBLEMA

Tudo me dói – o que passa
Porque não passa; o que fica
Porque não fica. A alegria
Que tenho nisso é dizê-lo.

Ah! como eu sei ficar triste!
Que habilidade em doer-me!
Minha ventura é um domingo
Que gastei a imaginá-lo...

Homero Frei,
In: Lado Alado

Mesmo que o rosto


Mesmo que o rosto
seja outro encanto no teu canto
Mesmo que os pássaros
sejam só aves
cautelosas nesta mão
Mesmo sendo já folha
ou ninho de verão
serei continuamente tua
como tão nenhuma
há-de ser para Ti!…

Ana Maria Domingues,
in Cartas a Romeu

Assim, assim


Assim, assim
(Miriam Portela)

Estou triste.
Uma tristeza
que se evapora
que transpira
mas não chora.
Uma dor miúda
quase inútil.
Parece chuva
que não molha.

Nós


Nós
(Guilherme de Almeida)

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos,

e que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto
hão de falar os teus cabelos brancos.

SONHO ANDARILHO


SONHO ANDARILHO
(Afonso Estebanez)

O sonho é o andarilho da memória
e minha alma é apenas sua estrada
onde o amor recomeça a trajetória
por atalhos de acesso sem entrada.

Nem sempre há personagem numa história.
Nem sempre uma lembrança é relembrada.
Mas quase nunca o pesadelo é uma aurora
para alguns sonhos dissipados na alvorada.

Ai de mim, tua rota de lembrança...
Ai de ti, meu roteiro de esperança
remida pelo olhar dos passarinhos...

Contorno os rios tortos e consulto o mapa
para chegar, inda que morto, àquela etapa
onde morrer seja melhor em teus carinhos...



Agradeço sua visita. 
Volte sempre e comente!

maio 13, 2015

Os rios

Os rios

Magoados, ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente,

Desejais regressar... Mas, leito em fora,
Correis... E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre a nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança...
Pois no vosso clamor, que a sombra invade,
No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade
De todos os que vivem de esperança,
De todos os que morrem de saudade...

Olavo Bilac
In ‘Tarde’ (1919)

maio 03, 2015

Estarei contigo


Estarei contigo. Como as pedras estão com os rios, como as árvores estão com as florestas, como os ventos estão com as tempestades, como os instrumentos estão com as músicas estarei contigo. E ainda assim me chamarás.

(Rogério Camargo)

abril 22, 2015

...e ela ainda está lá


...e ela ainda está lá
(Regina Helena)

...e ela ainda está lá, meu pai,
com todo o brilho de antes,
como eu a via, há tanto tempo atrás.

Me fez lembrar meu caderninho,
onde escrevia sonhos e rabiscava ilusões.

E você estava lá, na nossa vida.
Uma presença tão grande,
como  grande hoje é a saudade.

De repente,  olho para o céu,
e vejo aquela estrela brilhante -
aquela mesma -  que me fez sonhar.

... e hoje, meu pai,  acordei de vez:
- ela é a mesma! Sempre esteve ali.

Nós é que mudamos. Você partiu. A ficha caiu.
O tempo está no mesmo lugar e nós...

...passamos por ele, perdendo pelo caminho
o encanto, o brilho e os sonhos.
E encontrando no hoje,  só saudade.

janeiro 14, 2015

XII




Olhar a realidade face a face!
viver! (mas como se a gente sonhasse...)

Onestaldo de Pennafort,
in Arte by Igor Zenin


XI




Ah! velhos livros... Emoções passadas...
Já não nos falam mais como falaram!
Se são as mesmas pálpebras cansadas
e os mesmos olhos, já que não mudaram

as palavras das páginas marcadas,
por que não choram mais onde choraram?
É que as palavras ficam bem guardadas
lá no recanto d’alma em que ficaram.

E quantas almas há num corpo, quantas!
— cismo ao reler um livro, velho amigo
que o tempo amarelou e a que umas plantas

deram um cheiro bom de tempo antigo,
e que eu embora leia tantas vezes,
tantas… quero chorar e não consigo!


Onestaldo d Pennafort,
in Poesia

dezembro 31, 2014

ESPERANÇA




Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
vive uma louca chamada Esperança
e ela pensa que quando todas as sirenas
todas as buzinas
todos os reco-recos tocarem,
atira-se 
e
- ó delicioso vôo
será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá, então,
(é preciso explicar-lhes tudo de novo!)
ela lhes dirá, bem devagarinho, para que não esqueçam nunca:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...


___Mario Quintana,
 in Baú do Espantos pg 77