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abril 10, 2013

ARCO-ÍRIS




O amor pode ser lilás,
suave e calma fragrância;

o amor pode ser azul,
encharcado de noite e mar;

pode ser vermelho,
fruta madura explodindo
em incêndio:

verde-pássaro
abrindo a gaiola
e tingindo o mundo,

branco-espuma
tecendo renda,

amarelo
derramando ouro,

cor de laranja lavando
os sonhos com fogo.

Roseana Murray,
in Todas as Cores dentro do Branco


abril 08, 2013

CITAÇÃO



Ouvi o grito dos teus olhos
e me fiz silêncios...

Moisés Augusto Gonçalves,
in Fragmentos Impertinentes (2013)

abril 04, 2013

IDÍLIO



Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;
 
Ou, vendo o mar, das ermas cumeadas,
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas,
Ao longe, no horizonte, amontoadas:
 
Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão, e empalideces ...
 
O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.

Antero de Quental

SE RECORDO




Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.

Fernando Pessoa
 (Ricardo Reis) 

abril 01, 2013

CITAÇÃO


"Há momentos em que só a leitura preenche,
 de forma pura, vazios que a saudade cria..."

Vinicius Gibran Gehlen

CITAÇÃO



“Desejo é relação entre seres humanos carentes.
 Por isso amamos até à loucura e odiamos até a 
morte: nosso ser está em jogo em cada e em todos
 os afetos. Desejo é paixão, diziam os clássicos.”


Marilena Chaui

CITAÇÃO



"Saudade é quando você deita em sua cama vazia
 e no meio da noite um sonho te faz lembrar
 a pessoa amada. Então você acorda na esperança 
de encontrá-la ali, ao seu lado e ela não está.”


Rafael Silveira

LYA LUFT



"Lembro-me do passado, não com melancolia ou saudade,
 mas com a sabedoria da maturidade que me faz projetar
 no presente aquilo que, sendo belo, não se perdeu."


Lya Luft.

março 26, 2013

LIBERTAÇÃO



LIBERTAÇÃO

NOSSOS desejos se purificaram
e o nosso pensamento
foi subindo, ascendendo, serenando...

Nossas paixões se altearam
como o vento,
que, depois de varrer o pó do chão,
para as estrelas tremulas se eleva,
e, mais alto que a sombra, além da treva,
fica ressoando,
longe e livre, na ignota solidão...

Tasso da Silveira

março 23, 2013

CREPUSCULAR



A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.

Nuno Júdice

março 22, 2013

VISTO A VIDA



Visto-me com a saudade
verde dos teus olhos
e repouso no teu amor
que desdobra com calma sua trilha

Tenho-te no trânsito de olhos
sem destino,
num rosto que nada atinge
ou no tempo que em nós, eu vivo

Da tua alma singular
tenho a calma do amanhecer,
o sabor do reencontro
que aniquila tua ausência

Conceição Bentes

março 21, 2013

JÁ NÃO HÁ DOMINGOS



Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.

Mia Couto

RUBEM ALVES



"Cartas de amor são escritas não para dar notícias,
 não para contar nada, mas para que mãos separadas
 se toquem ao tocarem a mesma folha de papel."

RUBEM ALVES

A LEMBRANÇA



A lembrança dos teus beijos
inda na minh’alma existe,
como um perfume perdido,
nas folhas dum livro triste.

Perfume tão esquisito
e de tal suavidade,
que mesmo desaparecido
... revive numa saudade!

Florbela Espanca

março 19, 2013

LEMBRANÇAS



Lembro, o fogo aceso
no fundo da caverna
ou na clareira da mata,
o chamado das estrelas,
a lua errante, ensanguentada.
Lembro das palavras murmuradas.
Lembro, enquanto viro as páginas
do livro, da vida, toda lembrança
da humanidade é minha.

Roseana Murray
In Poemas para ler na escola

março 16, 2013

ANTONIO CARLOS F.DE BRITO



Ah se pelo menos o pensamento não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração não tivesse 
memória!
Como seria menos linda e mais suave
minha história!

Antonio Carlos F. de Brito 

LENÇOS DE SAUDADE



As praias onde vive e dorme e sonha o mar!
Praias de minha terra, ela são uns regaços
Aos quais a gente atira, ansiosamente, os braços,
Com desejos febris de neles descansar ...

É brio do esplendor que se derrama no ar,
Nesses longes sem fim, nos profundos espaços,
E vem como um amparo a todos os cansaços,
Eu junto às praias, sinto a alma sempre a cantar.

Pelas praias vivi e delas ainda guardo
muitas recordações de amores em que ardo,
Quando as cobre da tarde o áureo fulgor do manto ...

Ah! numa tarde assim, eu te abracei, amada!
À hora do ocaso, à hora suave, à hora calada,
Com lenços de saudade alagados de pranto.

Araújo Figueredo
in Poesias

março 14, 2013

RACHEL DE QUEIRÓZ



"Por que os Doutores, tão ricos em remédios para o 
corpo ofendido, não arranjam algum remédio para 
um ferido coração?"

Rachel de Queiróz

NÃO: JÁ NÃO FALO DE TI,JÁ NÃO SEI DE SAUDADES



Não: já não falo de ti, já não sei de saudades.
Feche-se o coração como um livro, cheio de imagens,
de palavras adormecidas, em altas prateleiras,
até que o pó desfaça o pobre desespero sem força,
que um dia, pode ser, pareceu tão terrível.

A aranha dorme em sua teia, lá fora, entre a roseira e o muro.
Resplandecem os azulejos – é tudo quanto posso ver.
O resto é imaginado, e não coincide, e é temerário
cismar. Talvez se as pálpebras pudessem
inventar outros sonhos, não de vida...

Ah! rompem-se na noite ardentes violas,
pelo ar e pelo frio subitamente roçadas.
Por onde pascerão, nestes céus invioláveis,
nossas perguntas com suas crinas de séculos arrastando-se...
Não só de amor a noite transborda mas de terríveis 
crueldades, loucuras, de homicídios mais verdadeiros.

Os homens de sangue estão nas esquinas resfolegando,
e os homens da lei sonolentos movem letras 
sobre imensos papeis que eles mesmos não entendem...
Ah! que rosto amaríamos ver inclinar-se da aérea varanda?
Nem os santos podem mais nada. Talvez os anjos abstratos
da álgebra e da geometria. 

Cecília Meireles
In: Poesia Completa

março 12, 2013

E O AMOR TRANSFORMOU-SE...



E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.
Era disto que falavam as mães quando davam conselhos 
às filhas e diziam: o amor vem depois. 
Era isto o depois. 
Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,
todas as horas do dia e um poema que se dissolve 
dentro de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.
.
José Luís Peixoto, 
in Gaveta de Papéis