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maio 23, 2021

A história é tão leve...



"A história é tão leve quanto a 
vida do indivíduo,
 insustentavelmente leve, 
leve como uma pluma, 
 como uma poeira que voa 
como uma coisa que vai
 desaparecer amanhã" 

Milan Kundera,
em, A insustentável leveza do ser


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FOLHAS





FOLHAS

Era uma folha pousada
no cotovelo do vento;
e pairava, deslumbrada,
entre morte e movimento.

Era uma folha: lembrava,
de tão frágil, o momento
em que a vida ficava
escrava do teu juramento.

Era uma folha: mais nada.
Antes fosse esquecimento!

David Mourão-Ferreira
De: Os quatro cantos do tempo


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maio 22, 2021

A VIDA NA CONTRAMÃO



A VIDA NA CONTRAMÃO
(Afonso Estebanez)

Não me embebedo com nada
porém me embriago de tudo
quanto mais me dão porrada
quanto mais me tenho mudo

Minha alma anda para frente
mas meu eu sempre pra trás
o que eu sonho é indiferente
quando peço o amor me traz

Minha vida anda embriagada
entre a aurora e a escuridão
bate em portas sem entrada
e quando entra é contramão

E esse mundo é tão deserto
que a noite me dorme acesa
com temor de não dar certo
meu despertar sem tristeza

E assim meus dias se calam
como as noites sobre o mar
como as rosas que só falam
quando o amor quer escutar.


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maio 20, 2021

VIDRAÇA


VIDRAÇA 

Foi sem querer que abriste uma janela, 
depois fechaste para o sol de outubro. 
Quero saber, então, se diante dela, 
tu me descobres como eu te descubro. 

A gratuidade é quase cega e apela
à contundência do calor mais rubro 
para fingir o que a razão revela 
quando te cobres e eu também me cubro.
 
Os dois não somos o que desde sempre 
o sol tentou mostrar pela vidraça 
que, a contragosto, diz à luz que entre. 

A claridade, assim, não ultrapassa 
um melancólico e sombrio alpendre 
onde chorar enquanto a vida passa. 

(Rogério Camargo)
Do livro: CAPIM MODESTO


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maio 19, 2021

A sombra do Passado



A sombra do Passado
(reginahelena)

a vida fica lá, na  juventude,
mas as lembranças ressoam dentro de nós
e nos acompanham, sempre,
como nossa sombra!  

conforme o sol,  ela muda de lugar
mas não nos larga.
em alguns momentos, some,
mas quando nasce o sol, volta.

assim é o passado... tão longínquo!
pensamos até que é possível 
desligar-se dele, definitivamente,
de tão distante que parece.  

triste engano! ele nos acompanha, 
como a nossa sombra, e, 
conforme tenha sido, nos trás ternura,
alegria, saudade, medo...

ou trás de volta a certeza de que,
nunca deveria ter existido.


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maio 14, 2021

Eu sou o caule ...



(Excerto)

"Eu sou o caule 
dessas trepadeiras sem classe, 
nascidas na frincha das pedras: 
Bravias. 
Renitentes. 
Indomáveis. 
Cortadas. 
Maltratadas. 
Pisadas. 
E renascendo."

Cora Coralina,
De: Minha Cidade


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maio 13, 2021

Quantas vezes...



... Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca


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maio 11, 2021

Se eu te fosse falar...





Se eu te fosse falar...
 (Rogério Camargo)

Se eu te fosse falar da minha vida 
 não falava metade do que posso. 
 No jogo entre a chegada e a partida, 
 sobra sempre o que é meu e não é nosso.

 Sangrando o coração de uma ferida 
 que meus orgulhos erguem do destroço, 
 eu vou e sei que vou e minha ida 
 não é uma amargura que eu adoço.

 Coloco os pés no chão e eles me doem 
 porque devem doer e são leais 
 à lei que os faz e fez e continua.

 Coloco a mão nas nuvens e elas moem 
 com a delicadeza das vestais 
 qualquer riqueza em mim que seja tua. 


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Amei-te sem saberes



"Amei-te sem saberes
No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei"

Mia Couto


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maio 02, 2021

ANTÍQUA

(Imagem do Site: poesia.net)


ANTÍQUA

Ali, entre os juncais,
a face de um deus esquecido
reverberava na tarde.
- Tua alma é antiga, junta-te a nós -
chamavam me os juncos, e tremiam
ao meu silêncio - um vento
que eriçava a memória da água.

Fernando Campanella


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maio 01, 2021

Algumas flores



Algumas flores
teimam em viver
apesar do peso
apesar da morte
apesar de algumas
que teimam em morrer
apesar de tudo

Alice Ruiz


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abril 29, 2021

Como a noite é longa!



Como a noite é longa!

Como a noite é longa!
Toda a noite é assim...
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem p’r’ao pé de mim...

Amei tanta coisa...
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou... Já não sei...
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...

Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,

Dormir a sorrir
E seja isto o fim.

Fernando Pessoa,
De: "Cancioneiro"


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abril 25, 2021

Escrevo diante da janela aberta

I

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando.

Mario Quintana, 
De: A rua dos Cataventos


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abril 24, 2021

Hora lilás...



Hora lilás...

Hora lilás, da cor desta saudade
Que não me deixa mais o coração,
Hora em que a alma toda se me invade
Só de tristeza e de desolação ...

Hora em que eu lembro a minha pouca idade
E a minha tão cruel desilusão ...
Tudo se esvai na bruma da saudade,
Essa tão doce e triste cerração ...

Hora lilás, da cor que me entristece,
Desta saudade que jamais esquece
Meu coração cansado de sofrer;

Hora em que eu vivo a vida já vivida,
Hora lilás, da cor da minha vida,
Pois é saudade só o meu viver.

Anrique Paço D’Arcos
in Poesias Completas




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abril 21, 2021

Biografia




Escreverás meu nome com todas as letras,
com todas as datas
- e não serei eu.

Repetirás o que me ouviste
o que leste de mim e mostrarás meu retrato
- e nada disso serei eu.

Dirás coisas imaginárias,
Invenções sutis, engenhosas teorias,
- e continuarei ausente.

Somos uma difícil unidade,
De muitos instantes mínimos,
- isso serei eu.

Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
Aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente.
- como me poderão encontrar?

Novos e antigos todos os dias
transparentes e opacos, segundo o giro da luz
- nós mesmos nos procuramos.

E por entre as circunstâncias fluímos,
Leves e livres como a cascata pelas pedras.
- Que mortal nos poderia prender?”

Cecília Meireles
Em “Poesia Completa – Dispersos (Volume 1)



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abril 20, 2021

Na insônia da madrugada...



Na insônia da madrugada
eu com nada mais me espanto.
Mesmo em idade avançada
jamais encontrei um canto
em que se possa escolher
entre o grito que dia cada,
e o silêncio que diz tanto.

Jenario de Fátima






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abril 17, 2021

A beleza não está...



“A beleza não está na cara; 
a beleza é uma luz no coração.” 

Khalil Gibran


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abril 16, 2021

Não podemos atingir...


Não podemos atingir a
aurora sem passar pela noite.

Kahlil Gibran





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abril 12, 2021

Chuva



Chuva

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria, 
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois, 
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria, 
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...

Ribeiro Couto 


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abril 03, 2021

Solidão



Solidão
(Juan Ramón Jiménez)

Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário!

Juan Ramón Jiménez,
in "Diario de Un Poeta Reciencasado"



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