É NOITE EM TEU JARDIM, MÃE
Pouca memória.
Tão clara e doída tanta.
Foi recente.
Mas tanto tempo faz que se foi.
Partiu em manhã de chuva.
Minha mãe partiu.
O único momento em que não se repartiu.
A sua morte não repartiu.
Disse um dia:
Viver é um jardim precário.
Mas vejo no meu jardim
a eternidade do jasmim.
Porque é belo o eterno.
E porque é belo o jardim.
Sim! o dia amanhece.
Todos os dias.
Por trás dos montes
que vejo de teu jardim.
E toda manhã
o vizinho passa em frente da casa
e não te acena mais.
nunca mais.
Acena para o jardim vazio,
por hábito, medo da morte, espanto.
E pela luz do dia
que ainda freme
de teu canto.
E mesmo assim
é noite em teu jardim.
Por mais que amanheça,
por mais que amanheça.
Lindolf Bell
Seja bem-vindo. Hoje é
outubro 05, 2013
setembro 30, 2013
PRESENÇA
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!
Mário Quintana
In: Apontamentos de História Sobrenatural
AS MÃOS DE MEU PAI
As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza
que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços
da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los
contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das
tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura das tuas mãos
nodosas…
essa chama de vida – que transcende a própria vida
…e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.
- Mario Quintana,
in: Esconderijos do tempo
julho 24, 2013
REGRESSO
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina
junho 10, 2013
DA SAUDADE
Flor - cristal
a derramar-se dentro das horas
a dar-se em pólen
nos momentos brancos do existir
Recados de muito longe
acordando gestos dormidos!
Espera lenta
com sinal de regresso
Pedaço do sol
abrasando os minutos
Mulher-criança
brincando nos muros do Tempo
no rastro do Tempo
no tempo do Tempo
Lia Corrêa
In Uma Rosa no Tempo
junho 04, 2013
SAUDADE
Saudade! É o rio cheio transbordante
Que lembra nossos tempos de criança
É o arvoredo verde, farfalhante
Misturando-se ao verde da Esperança.
Saudade! É o doce canto delirante
Do pássaro que no galho se balança
É a lua cheia vagarosa, andante
Espargindo a luz branca da bonança.
É repassar na mente, do passado
Doces recordações adormecidas
Que não se pode descartar, jamais...
Sentir dentro do peito apaixonado
Um “não sei” que transportam nossas vidas
A tempos idos que não voltam mais.
Bernardina Vilar
de 'Bom dia Saudades'
BOM-DIA, SAUDADE !
Bom dia, meu amor! Tudo desperta
Para um dia de novas esperanças!
E eu vejo o sol pela janela aberta
Do infinito, no início das andanças.
Mas eis que nuvem turva lhe acoberta
E fixa em meu olhar tristes lembranças
Foge o sol, foge a luz, e a a dor me aperta
O coração, que esta tristeza alcança.
Bom, minhas flores que murcharam!
Meus pássaros que tristes se calaram
Envoltos por um véu de soledade.
Bom dia, então, minha tristeza triste
Que dentro de mim, em me magoar persiste...
Bom dia, meu amor, minha saudade!
Bernardina Vilar
de "Bom-dia Saudade"
A MEDIA LUZ
Sempre reneguei o tango
e os entusiastas de Gardel,
(longe de mim a passional postura
eivada de desolação e dor),
o amor sempre em mim um campo
de mais alvos lírios onde não choveu.
Cerrei as tendas, afastei o bruxo,
mas na contrapartida
adiei o fruto, me ceguei à cor.
Violinos eternos , bandoneón ,
toquem-me hoje um tango crepuscular
e tardio, toquem, que desaprendi
o me bastar e o meu cismar sozinho,
à meia-luz meu coração são girassóis
que dançam - todo chama, e torvelinho.
Fernando Campanella
NÃO SEI SE DIGA
Não sei se diga ou não diga,
Nem se o dizer é direito:
Trago-te dentro do peito
Sem nunca sentir fadiga
Emilio Kemp
in Cantos de Amor ao Céu e à Terra
OS DEGRAUS DA VIDA
É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.
Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos, nem sobressaltos
servem sequer de lição.
Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.
Sobe-se numa corrida.
Correm-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.
David Mourão-Ferreira,
in Antologia Poética
maio 24, 2013
QUEM AMA INVENTA
Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria.
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!
Mario Quintana
in: A Cor do Invisível
maio 03, 2013
TENÇÃO DE MAL-DIZER
Se eu pudesse desamar,
Que me sempre desamou,
Não me fizera penar
Do mal que penando estou.
Assim me vingara eu
De que por mim não sofreu.
Mas não posso eu desamar,
Quem me sempre desamou,
Por isso quero poupar
Quem a mim nunca poupou:
Rogo a Deus não faça amar,
Quem me sempre desamou.
Martins Fontes
In: Obra Poética
abril 21, 2013
CANTIGA DE RODA
Ao som de ingênua cantiga,
Gira, ligeira, uma roda.
Bailam cabelos de linho,
Brilha a cantiga nos olhos,
Saltam, leves, os pezinhos.
Os grandes cedros antigos,
Também, se põem a bailar:
Cantam os ramos no ar,
Dançam as sombras no chão.
Helena Kolody
in 'Sinfonia da vida".
FELICIDADE
Ela veio bater à minha porta
e falou-me a sorrir, subindo a escada:
“Bom dia, árvore velha e desfolhada”
e eu respondi: “Bom dia, folha morta”
Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...
Então chamou-me e disse: “Vou-me embora!
Sou a felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz”
E foi assim que em plena primavera,
só quando ela partiu contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!
Guilherme de Almeida
in Sonetos
abril 18, 2013
SAUDADE
Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.
MIA COUTO,
in"Tradutor de Chuvas"
abril 10, 2013
ARCO-ÍRIS
O amor pode ser lilás,
suave e calma fragrância;
o amor pode ser azul,
encharcado de noite e mar;
pode ser vermelho,
fruta madura explodindo
em incêndio:
verde-pássaro
abrindo a gaiola
e tingindo o mundo,
branco-espuma
tecendo renda,
amarelo
derramando ouro,
cor de laranja lavando
os sonhos com fogo.
Roseana Murray,
in Todas as Cores dentro do Branco
abril 08, 2013
CITAÇÃO
Ouvi o grito dos teus olhos
e me fiz silêncios...
Moisés Augusto Gonçalves,
in Fragmentos Impertinentes (2013)
abril 04, 2013
IDÍLIO
Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;
Ou, vendo o mar, das ermas cumeadas,
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas,
Ao longe, no horizonte, amontoadas:
Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão, e empalideces ...
O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.
Antero de Quental
SE RECORDO
Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
Fernando Pessoa
(Ricardo Reis)
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