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janeiro 10, 2013

DANÇA LENTA



Não somos nem bons nem maus:
somos tristes. Plantados entre chão
e estrelas, lutamos com sangue,
pedras e paus, sonho
e arte.
 
Nem vida nem morte:
somos lúcida vertigem,
glória e danação. Somos gente:
dura tarefa.
Com sorte, aqui e ali a ternura
faz parte.

Lia Luft
in Para não dizer adeus

POEMA DE AMOR



Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno 
E quase ia morrendo com o receio de que ele 
não te coubesse no dedo.

Jorge de Sousa Braga,
in O Poeta Nu

janeiro 09, 2013

CITAÇÃO


Há um tempo para partir,
mesmo quando não há um lugar certo para ir.

Tennessee Williams


CITAÇÃO - RUBEM ALVES



Não havíamos marcado hora,
não havíamos marcado lugar.
E, na infinita possibilidade de lugares,
na infinita possibilidade de tempos,
nossos tempos e nossos lugares coincidiram.
E deu-se o encontro.

Rubem Alves

janeiro 08, 2013

PORTO PARADO



No movimento
lento
das barcaças
amarradas
o dia
sonolento
vai inventando as variações das nuvens...


Mario Quintana 
In A cor do Invisível 

janeiro 06, 2013

QUERO QUE ME ABRACES



Quero que me abraces,
antes que a tristeza envelheça no meu peito.
Com o tempo, habituei-me
à conivência das palavras
e a usar, com inocência, certos gestos.
A tua sombra é-me familiar.
Sou espectador do teu sorriso
tão perto da simplicidade.
Quero falar contigo, horas a fio.
Sem pretextos de fuga.
Sem palavras caladas.
Um silêncio definitivo ser-nos-ia fatal.
Mas, depois, partirei,
porque sei que há no meu sangue
uma embarcação possessa
do chamamento do mar, ou da solidão.

Graça Pires,
in Conjugar Afectos

UMA ARMADILHA NO PEITO



Em madrugadas, vagamente obscuras,
descrevo sombras longínquas,
que perseguem a minha sombra.
Os mais premonitórios sulcos noturnos
brilham-me nos pés.
Uma armadilha no peito relembra
a exata adolescência das pálpebras,
quando exibia, no sorriso,
a luz da primavera.
Era menina e havia nos meus olhos tanta fé
que, nem o céu nem o mar excediam,
em grandeza, o meu olhar.

Graça Pires,
in Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos


dezembro 18, 2012

ILUSÃO



O meu navegar é puro
Pleno de saudades...

Solidão de afeto vai comigo

Queria tanto que entendesses
E perdoasses minhas ilusões pueris.


Anna Carlini
de ''Fadado ao esquecimento''

ASA



Esse alçar vôo
no compasso da emoção,
como se os pés
e os braços
fossem asas
ao sabor do som,
a música que embala
e impulsiona,
enlevo e encanto...

Dançam meus olhos,
bailarinos trôpegos,
ávidos de movimento,
de beleza e luz,
de eternizar a arte
divina e imortal
na ponta desses pés...

Luiz Carlos Amorim 
In Blog Crônicas do Dia 

QUERO SENTIR



Quero sentir tua mão amiga,
junto da minha no prazer, na dor.
Assim, mesmo entoada a última cantiga,
um som há de restar do nosso amor.


Carlos Drummond de Andrade
In ‘Poesia Errante’

dezembro 13, 2012

MEMÓRIA



Na longíqua tarde
ledas conversas de seda
saudades saudades...

Delores Pires,
in O Livro dos Haicais

dezembro 07, 2012

AZUL DE TI



Pensar em ti é azul, como ir vagando
por um bosque dourado ao meio dia:
nascem jardins na fala minha
e com minhas nuvens, por teus sonhos, ando.

Nos une e nos separa um ar brando,
uma distância de melancolia;
eu alço os braços de minha poesia,
azul de ti, dorido e esperando.

É como um horizonte de violinos
ou um tépido sofrimento de jasmins
pensar em ti, de azul temperamento.

O mundo torna-se cristalino,
e te vejo, entre lâmpadas de trino,
azul domingo de meu pensamento.

Eduardo Carranza
In Antologia Poética

dezembro 04, 2012

GUSTAVE FLAUBERT


"O amor é um modo de viver e de sentir.
 É um ponto de vista um pouco mais elevado,
 um pouco mais largo; nele descobrimos o 
 infinito e horizontes sem limites."

Gustave Flaubert 

novembro 28, 2012

ESTA SAUDADE ÉS TU



Esta saudade és tu... E é toda feita
de ti, dos teus cabelos, dos teus olhos
que permanecem como estrelas vagas:
dos anseios de amor, coagulados.

Esta saudade és tu... É esse teu jeito
de pomba mansa nos meus braços quieta;
é a tua voz tecida de silêncio
nas palavras de amor que ainda sussurram...

Esta saudade são teus seios brancos;
tuas carícias que ainda estão comigo
deixando insones todos os sentidos.

Esta saudade és tu... é a tua falta
viva, em meu corpo, na minha alma, viva,
... enquanto eu morro no meu pensamento.

J. G. de Araujo Jorge

novembro 27, 2012

Ando muito só



''Ando muito só, um tanto assustado,
 e com a esquisita sensação de que 
tudo acabou. Ou pelo menos está se 
transformando — e radicalmente — 
em outra coisa. E tão vago, não sei
 sequer dizer do que se trata. [...]''

Caio Fernando Abreu

OLHAR DE SOMBRA



Saudades que avultais dia por dia;
Mágoas solenes, mágoas funerárias,
De esborcinadas ruínas solitárias
Que são os templos da Melancolia.

Arabescos de musgo, flores de era;
Tons de nevrose, tons finos e belos,
Desde brancura rútila dos gelos
À ardente floração da Primavera.

Ouvi a lenda desse olhar de sombra,
Onde acordaram vossas revoadas
Toda volúpia de uma estranha alfombra:

Vago, ele tinha, em longas penitências,
O silêncio das praias desoladas,
E esse vago martírio das ausências.

 Silveira Neto,
in 'Luar de Inverno' 

novembro 26, 2012

REGRESSO AO LAR



Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!
Foi há vinte?... Há trinta? Nem eu sei já quando!
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida.
Só achei enganos, decepções, pesar.
Oh, a ingênua alma tão desiludida!.
Minha velha ama, com a voz dorida.
canta-me cantigas de me adormentar!

Trago de amargura o coração desfeito
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!
Minha velha ama, que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar.
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!
Minha velha ama, sou um pobrezinho
Canta-me cantigas de fazer chorar!

Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado! 
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!

Canta-me cantigas manso, muito manso
Tristes, muito tristes, como à noite o mar.
Canta-me cantigas para ver se alcanço 
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!

Guerra Junqueiro,
in Os Simples

ALBA



Orvalho da manhã, pranto da noite,
Luz que só tinha sombra e clareou.
Como um poema que se derramou
Sobre o corpo da vida
Mal acordada,
Assim és tu, pura emoção vertida,
Voz do silencio, solidão molhada.


Miguel Torga
In: Antologia Poética

novembro 25, 2012

PONTA SECA



Remendo o coração, como a andorinha
Remenda o ninho onde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha...
Mas fico a olhar depois a cicatriz. 


Miguel Torga
In: Antologia Poética

FRUSTAÇÃO



Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.


Miguel Torga,
in 'Diário XV'