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julho 21, 2012

IMPROVISO



Minha canção não foi bela:
Minha canção foi só triste.
Mas eu sei que não existe
Mais canção igual àquela.

Não há gemido nem grito
Pungentes como a serena
Expressão da doce pena.

E por um tempo infinito
Repetiria o meu canto
- saudosa de sofrer tanto.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANTATA VESPERAL



CERRAI-VOS, OLHOS, que é tarde, e longe,
E acabou-se a festa a festa do mundo:
Começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
Perdem-se; e vão fugindo em mármore
Cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
Nem há mais vozes que se entendam
Nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
Sem esperanças de endereços.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

julho 20, 2012

ENIGMA



Decifrar teus olhos
é como ler em pergaminhos
uma escrita desconhecida,
é como ler na superfície
do mar
um navio enterrado,
o segredo das conchas.
Decifrar teus olhos
como se teus olhos fossem
o lado oculto da lua.

Roseana Murray
In Recados do Corpo e da Alma

ENTRE TEUS CAMINHOS



Entre teus caminhos vaguei, meio incerto.E ainda hoje incerto
busco-me em teus caminhos.Sei que estás, não alheio, apenas
no teu silêncio que me povoa de estranhas claridades.

Nem digo teu nome; não o invoco em vão; prefiro aprender
no fundo de não sei que noite as centelhas dos teus passos.
E a súbita fulgurância que deve ser a tua voz.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Discurso no Deserto

julho 17, 2012

RELÍQUIAS



Nesta velha caixinha abandonada,
que a ação do tempo fez mudar de cor,
retalhos de minh’alma emocionada
guardei, outrora, com carinho e amor ...

Relíquias ... Eram cantos de alvorada,
e hoje traduzem nostalgia e dor.
Restos mortais de uma ilusão dourada,
vago perfume de sidérea flor.

Ai, Tudo o vento do destino leva:
A luz se apaga e, a divagar em treva,
erram lembranças que doridas são!

Na vida é tudo assim! Tudo envelhece
mas, dentro d’alma o sonho não fenece
e o coração ... é sempre o coração.


Emiliana Delminda
in Folhas Caídas  

julho 14, 2012

SE É PAIXÃO , ME NEGO




Se é paixão, me nego.
Já resvalei a alma em pêlo,
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.

Se é paixão, desculpe-me, não posso.
Conheço suas insônias
e a obsessão.

Se é paixão me vou, não devo...
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
e ao seu corte estou imune.

Se é paixão, me nego
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.

Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.

Affonso Romano de Sant’Anna



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julho 13, 2012

SAUDADE



Saudade é uma dor suave e forte!
Cicatriz a sangrar dentro da gente. . .
E a vida em flor com sensação de morte;
Amanhecer com sombras de poente.

Saudade! Insônia de quem não se importe
De sonhar envolvido em sono quente.
Nuvem de sol, calor que desconforte
A alma gelada, tiritante e ardente.

Saudade é a expressão indefinida. . .
Verso incompleto de canção dorida...
Minuto que se fez eternidade!

Recado extraviado no caminho. . .
A paz da ave que perdeu seu ninho...
Melodia de pranto é o que é Saudade.

Bernardina Vilar
In ‘Bom dia Saudade’

julho 12, 2012

BEIJO MALDITO



Da Fantasia nos itinerários
Beijei teu lábio de veneno e insídias...
- Rosa de outono aberta em dois nectários,
- Mirra enganosa dos turibulários,
- Vaso de Sévres recendendo a orquídeas.

Beijei teu lábio de veneno e agruras
E o beijo trouxe-me o fatal ressábio
Dos desesperos e das amarguras...
E vou rolando para as sepulturas
E nunca mais hei de beijar teu lábio!

Augusto dos Anjos

SAUDADE



Ó!
o lírio branco se tingiu de roxo
ao som da valsa da melancolia.

Colombo de Sousa
In: Estágio

julho 11, 2012

TUAS CARTAS



Tuas cartas rasguei uma por uma:
Cento e quatorze páginas e tiras
De confissão e juramento: em suma,
De perfídias, de enganos, de mentiras.

E chorei, ao rasgá-las! Tinha alguma
Cousa implorando contra as minhas iras
Em todas; e, hoje, irritação nenhuma
Neste peito verás, por mais que o firas.

Eram mentiras, eu bem sei... No entanto,
Cada rompida página era um cardo
Que enterrava do peito em cada canto.

E eis porque, pelo chão, após instantes,
Os pedaços juntei... e agora os guardo
Com mais amor do que os guardava dantes!


Humberto de Campos,
In: Poesias Completas 

ALICE RUIZ


Tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados

Tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido

E tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado

Alice Ruiz




ALICE RUIZ



Sim.
Todos os poemas
São de amor
Pela rima,
Pelo ritmo,
Pelo brilho
Ou por alguém,
Alguma coisa
Que passava
Na hora
Em que a vida
Virava palavra.

Alice Ruiz

julho 10, 2012

PAIXÃO



Paixão da vida já ida,
paixão da vida,

toda me cruzaste acesa
na pungência, na aspereza

de lâminas, Paixão da vida
que à morte incita e convida

a caminhar sob o ardor
de um gosto de exausto amor.

Que à noite leva e destrói
e malbarata e, se dói,

dói como um insulto ou murro
e, em silêncio, é mais que um urro.

É mais que o fogo cremando,
mais que o fogo devastando,

paixão da vida tenaz,
um pobre e temido , mas

adversativamente posto
como um sorriso num rosto

retorcido em tetania.
Paixão que devora, fria,

cruel, feroz, insensata,
e crê salvar, quando mata.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Discurso no deserto

SE A SAUDADE QUE VEM É PASSAGEIRA...



Se a saudade que vem é passageira
E o amor é fogo a arder em breve instante,
Deixa que eu leve ao coração sangrante
Minha palavra amiga e companheira

Deixa que eu chore e sofra e ria e cante
E colha a paz na lágrima primeira,
Pois a loucura é como uma fogueira
Que me desvaira em música incessante.

Deixa que eu sofra nas corolas, ria
Nas madrugadas, me desfolhe em sinos,
E me perca no céu como no mar...

Deixa que eu me desfaça em melodia,
Que eu me alucine em risos de meninos,
Que eu me procure para não me achar!

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Sonetos da Ausência

FLOR DECORATIVA



Você desliza à tona da vida e das mágoas,
Como flor sem raiz, flutuante em densas águas.
Não imagina sequer
A angústia de sondar a profundeza
Do misterioso abismo colorido,
A lúcida beleza exterior.
Flor de superfície, deixa-se embalar
Pelo incessante ondular da existência...

Helena Kolody 

AMOR VIOLETA



O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco.Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.

Adélia Prado
In Bagagem


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O SEMPRE AMOR



Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.

Adélia Prado
In Bagagem


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julho 06, 2012

A FLOR DO SONHO



A Flor do Sonho alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste banda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou talvez, sina...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh'alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...

Florbela Espanca

APELO


Porque
não vens agora, que te quero
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência....

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.

Miguel Torga

julho 04, 2012

SAUDADE



Saudade é um sino triste bimbalhando
Na igrejinha branca de uma aldeia;
E um violão sonoro dedilhando
De uma noite, ao clarão da lua cheia.

Saudade é um rio cheio transbordando
Lançando ao longe turbilhões de areia;
É a cachoeira se precipitando
Jogando as águas no furor que ateia.

Saudade é uma manhã de sol nascente
Com gotinhas de orvalho ornamentando
As flores de um jardim, desabrochadas...

E a gente a contemplá-las docemente
Percebendo que em nós estão faltando
Todas as alegrias desejadas.


Bernardina Vilar