Seja bem-vindo. Hoje é

junho 27, 2012

B Á L S A M O



Seja abençoado o coração formoso
que, evocando perdido paraíso,
a súbita expansão de alheio gôzo,
a própria dor disfarça num sorriso.

José Lannes
In: Candeia

junho 26, 2012

FUGA




As andorinhas emigram.
No amplo céu recortam
Silhuetas palpitantes.

As andorinhas emigram.
Submerge no claro dia
A música imperceptível
De seu trissar.

Senhor! As andorinhas emigram...
Fazei-as voltar!

Helena Kolody

ABANDONO



Depois que partiste,
em meu jardim, só florescem
goivos e saudades.


Leonardo Henke
In: Pedras do Meu Garimpo

CANÇÃO



Toda flor tem seu perfume,
toda estrela seu fulgor;
não existe amor sem ciume,
nem há ciume sem amor.


Leonardo Henke
In: Pedras do Meu Garimpo

DESENCANTO





Muitas vezes cantei nos tempos idos
Acalentando sonhos de ventura:
Então da lira a voz suave e pura
Era-me um gozo d’alma e dos sentidos.

Hoje vejo esses sonhos convertidos
Num acervo de penas e amargura,
E percorro da vida a estrada escura
Recalcando no peito os meus gemidos.

E se tento cantar como remédio
Às minhas mágoas, ao sombrio tédio
Que lentamente as forças me quebranta,

Os sons que arranco à pobre lira agora
Mais parecem soluços de quem chora
Do que a doce toada de quem canta.


Pe. Antônio Tomaz

EMBLEMA



A fogo imprimiste, Senhor,
Na carne de meu coração
A tua insígnia de dor.

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

junho 25, 2012

A MORTE DE JESUS



Da Cruz pendente expira, e, sem demora,
De susto e horror desmaia o sol na altura,
Cobre-se o céu de um manto de negrura,
E o mundo inteiro treme e se apavora.

Trajando luto, a natureza chora,
Fende-se a terra, estala a rocha dura,
E, abandonando a paz da sepultura,
Vagueiam mortos pelo campo afora...

Além ronca o trovão sinistramente...
Fuzila o raio e, em doida tempestade,
Brame e se agita o velho mar gemente.

Tinhas, decerto, ó Cristo, a divindade,
Pois na morte de um Deus, de um Deus somente,
Pode haver tanta pompa e majestade!


Pe. Antônio Tomaz

VESPERTINO


VESPERTINO
(Pe. Antônio Tomaz)

Sobre as veigas e campos perfumados
Se estende um véu de sombras e palores;
Cingem, no entanto, vívidos fulgores
Os denegridos cerros escalvados.

Enxada ao ombro em cismas mergulhados
Voltam do campo os rudes lavradores;
Soam no ar bucólicos rumores;
Doces mugidos, cantos magoados.

Ao longe o sino em doloroso acento
Geme uma prece; a juriti suspira,
De quando em vez, um brado de lamento.

E na floresta – gigantesca lira –
Vai tristes nênias entoando o vento
Ao rei da luz que no poente expira.

A MORTE DAS ROSAS



Nos canteiros orlados de verdura,
De mil gotas de orvalho umedecidas,
Cheias de viço e de perfume ungidas,
Desabrocham as rosas à ventura.

Mas a vida das rosas pouco dura,
E as míseras em breve, enlanguescidas,
A fronte curvam, nos hastis pendidas,
Sob os raios do sol que além fulgura.

E vão largando as pétalas mimosas
Ao sopro mau dos vendavais infestos,
E os despojos finais das tristes rosas

De cor vermelha, pelo chão tombados,
Fazem lembrar sanguinolentos restos
De pobres corações despedaçados.


Pe. Antônio Tomaz

junho 22, 2012

ROSA...ESPINHO




Pago a impaciência
desta paixão ansiosa
por te querer
em meu caminho...

Quis colher a rosa:
- feriu-me o espinho...


J.G. de Araujo Jorge
in Espera

junho 21, 2012

DOR



A mão se fecha
você se crispa
em dor.

Você se crispa
a dor se abre
em flor:

e você não sabe
na terceira pessoa do singular
porque realmente sofrer
essa dor plural.


Álvaro Pacheco
In "Seleção de Poemas”

DANÇARINA ESPANHOLA




Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

Rainer Maria Rilke 

junho 20, 2012

REMORSO



Ás vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores, sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! Com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude. 

Olavo Bilac

FLORBELA ESPANCA



"...Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade... "

Florbela Espanca 

junho 18, 2012

SAUDADE




A saudade é uma andorinha,
mas uma andorinha estranha:
quando, num peito se aninha,
as outras não acompanha…

Saudade – coisa que a gente
não explica nem traduz;
faz do passado, presente,
e traz sombras, sendo luz…

Saudade – febre que a gente
sem querer, pode apanhar,
nunca mata de repente,
vai matando, devagar…

Saudade – a princípio é pena
que nos deixa uma partida;
depois é dor que condena
a morrer dentro da vida…

se é triste sentir saudade,
muita saudade de alguém,
maior infelicidade
é não tê-la de ninguém.


Yde Schloenbach Blumenschein 

MAIS UM DIA PERDIDO



Há dias e que tudo é sem remédio,
em que tudo começa e acaba torto.
Uma folha caiu:
era um pásaro morto.

Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
Choveu, parou a chuva,
ficou, porém, a lama.

Um banco no jardim. Árvores nuas,
um cisne velho, um tanque, água limosa,
nem a relva ficou,
quanto mais uma rosa.

Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
e nas ruas há gente, há muitas casas.
Mais um dia perdido:
arrancaram-lhe as asas."


Fernanda de Castro
In Urgente» 

CREPUSCULAR



Crepúsculo da tarde, esta agonia
de cores meigas e de luz magoada
não a compreende a mente rude e fria,
onde a ilusão e a dor não têm pousada.

Mas à alma sonhadora e amargurada
bem familiar é a tua nostalgia:
- Efêmera saudade eternizada
na velhice infantil de cada dia ...

Cada dia a morrer eternamente,
é como o sol que agora já não arde
esta minha alegria descontente.

Ante o cair da noite muda e calma,
é como tu, crepúsculo da tarde,
sempre triste gêmeo de minha alma ...

José Lannes
in Candeia

junho 17, 2012

RETALHOS


RETALHOS
(Jenario de Fátima)

Que nosso amor seja algo assim bem leve.
Como é bem leve o riso da criança,
Que em correria se arremessa e lança
Sobre a campina feita em branca neve.

E se este amor tiver a vida breve.
Que sua brevidade seja mansa,
Tal qual a pluma que no ar balança,
Deixando encanto na rota que escreve.

Porem se um dia deste amor partires,
Entenderas que olhares deslumbrados
Só brilham enquanto dura o arco-íris.

Mas no entanto não seguiras sozinha,
Hás de lembrar que em meio a teus guardados,
Haverá sempre alguma coisa minha.