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junho 10, 2012

NÓS




Afinal o que eu sinto
é o sofrimento atroz
de muito tarde descobrir que nunca
falaremos em nós...

Eu, serei eu; - tu, serás tu,
e eternamente assim
nem nunca me terás como queres que eu seja
nem serás como eu quero que sejas pra mim...
Muito tarde... muito tarde...
-depois que assim te quero, e preciso de ti
como os pulmões de ar
ou os olhos de luz,
é que vou descobrir que se ficarmos juntos,
eu poderei te odiar, tu poderás me odiar!
- Quem diria afinal, ao que o amor se reduz?!

Estraguei tua vida e desgraçaste a minha
e fomos acordar, os dois, tarde demais...
Agora, eu sigo só,
tu, seguirás sozinha,
eu, fugindo, - covarde!...
a este amor que me espinha!
tu, querendo, - medrosa!...
inutilmente a paz!

E o que é estranho afinal, é que nós nos amamos,
e sentimos no entanto que nos separamos,
cada um com a sua sombra dolorosa a sós...
-conformados, na dor cruel nos convencemos.
de que nunca na vida, eu e tu... seremos     nós


J.G.de Araujo Jorge
in "Eterno Motivo"

SAUDAÇÃO DA SAUDADE



Minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vida
só é possível
noutra vida

Aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz

Ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento

Aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim

Alice Ruiz


SE



Se,
na vastidão dos teus sonhos,
couber um pouquinho de mim,
nossos sonhos serão realidade,
enfim!

Luiz Carlos de Oliveira

junho 08, 2012

SONETO DA SAUDADE


O céu desperta triste, em tom cinzento,
qual lhe fora penoso um novo dia;
aos poucos, verte, em gotas, seu lamento...
Um pranto ensimesmado, de agonia.

Um rouco trovejar, pesado, lento,
parece suplicar por alforria,
num rogo já exangue, sem alento...
A chuva... O cinza... A dor... A nostalgia...

O céu despertou triste... O céu sou eu,
perdida num sonhar que feneceu,
sou prisioneira à espera de mercê.

Sonhando conquistar a liberdade
desta prisão, que existe na saudade...
Saudade, tanta, tanta... De você!

Patrícia Neme

SAUDADE




Saudade! A alma curou-se da ferida:
Mas quantas cicatrizes na lembrança!
Passa no ar uma queixa dolorida
E há um véu por tudo quanto a vista alcança.

Horas de sombras: o cortejo avança ...
Saudade! Filigrana entretecida
Com fios de ouro e prata, que a esperança
Deixa por todos os sarçais da vida.

Longe, no campanário abandonado,
O sino dobra, lúgubre. Uma prece
Sobe do coração para o passado.

A tarde morre, misteriosa e calma.
Vão-se as últimas asas. Anoitece.
O sino cala-se. Anoitece a alma ...


Heitor Lima
in Primeiros Poemas

SAUDADE



Saudade!

Dize-me: Quem és?

Tu apareces sempre
Quando alguém se separa,
Deixando um rastro qualquer...

Presente estás
Quando o amor se parte,
Partindo também
Os elos de uma corrente,
Corrente que devia ser permanente...

Saudade!
És um termo
Como outro qualquer,
Mas és também
Uma personagem da vida,
Que se coloca entre dois seres...

Mas, saudade.
Torno a perguntar-te:
Finalmente,
Quem és?!


Olympiades G. Corrêa,
in Neblina do Tempo 

junho 06, 2012

AS VIDAS QUE EU SONHEI



Fico soturno a olhar para o mar
e a pensar num rei a traduzir Shakespeare
numa varanda embriagada pelo azul.
Deixei de ter tempo para espiritualidades,
para o engodo das tremendas interrogações,
para a altivez das perguntas sem resposta.
Fiquei temporariamente domesticado
para uma outra escrita, por um discurso
que não consente divagação ou fuga.
Normalizei-me, e contudo gosto de ver
a mão hesitante e trémula
à beira da consumação do poema
quando a maré assalta a muralha e traz,
misturados com a espuma,
os destroços das vidas que eu sonhei,
das vidas que, se calhar, eu já vivi.


José Jorge Letria

QUEM DO AMOR SE APARTA





Quem do amor se aparta não tardará
a saborear o fruto inclemente da amargura.
Medirá as rugas e os passos
na solidão dos quartos e dos livros,
guardará as folhas das árvores
que crescem nas fábulas e nos sonhos.
Provará um gosto acre, um delírio vagaroso,
um desejo aflitivo de escapar
ao cativeiro da sombra em que se move.
Experimentará a secura da carne,
a magreza do corpo sobre as dunas,
a ansiedade tremenda de estar fora de si
onde quer que esteja, para onde quer que fuja.
A loucura, dirá, cinge com seus dedos
a garganta ferida pelo álcool.
Descerá ao inferno da noite minguada
pela avareza da luz sobre as veredas.

Quem do amor se aparta há-de perder-se
em todos os sentidos menos naquele
em que a campânula dos ventos se enche
com o eco do nome amado, impronunciável.

José Jorge Letria
In Percurso do Tempo 

junho 05, 2012

FUI SABENDO DE MIM



Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia


Mia Couto  

SILÊNCIO



Cala. Qualquer que seja esse tormento
que te lacera o coração transido,
guarda-o dentro de ti, sem um gemido,
sem um gemido, sem um só lamento!

Por mais que doa e sangre o ferimento,
não mostres a ninguém, compadecido,
a tua dor, o teu amor traído:
não prostituas o teu sofrimento!

Pranto ou Palavra - em nada disso cabe
todo o amargor de um coração enfermo
profundamente vilipendiado.

Nada é tão nobre como ver quem sabe,
trancado dentro de uma dor sem termo,
mágoas terríveis suportar calado!

Medeiros e Albuquerque 



Agradeço sua visita. 
Volte sempre e comente!

junho 04, 2012

NUNCA MAIS...




Passa um dia,
e outro a correr atrás dele
e outro e outro...
O tempo a todos impele,
tal o vento
levando, em doida correria,
revoadas de folhas outonais,
folhas de calendários sempre iguais,
uma a uma arrancadas,
perdidas nas estradas...


Nunca mais... Nunca mais...


Saúl Dias
In Essência

SONHO



Sonhei esta existência de venturas,
Sonhei que o mundo era só d'amor,
Não pensei que havia amarguras
E que no coração habita a dor.

Sonhei que me afagavam as ternuras
De leda vida e que jamais palor
Marcou na face humana as desventuras
Que a lei de Deus impos com rigor.

Sonhei tudo azul e cor de rosa.
E a sorte ostentando-se furiosa
Rasgou o sonho formoso que tive;

Sonhando sempre eu não tinha sonhado
Que n'esta vida sonha-se acordado,
Que n'este mundo a sonhar se vive!

Fernando Pessoa
In Poesias Ocultistas

junho 03, 2012

ARCO-ÍRIS



O amor pode ser lilás
suave e calma fragrância
o amor pode ser azul
embebido em noite e mar
pode ser vermelho
fruta madura explodindo
em incêndio
verde pássaro
abrindo a gaiola e tingindo
o mundo
branco espuma tecendo renda
amarelo derramado ouro
cor de laranja lavando com fogo
os sonhos.

Roseana Murray
In Lições de Astronomia

CANTIGA DOS TRÊS MOMENTOS





Ontem
os lírios brancos.
e nós dois no jardim.

Hoje
os bulbos dormindo,
a saudade sem fim.

Amanhã
das areias
talvez se erga uma voz:

Talvez
lírios de pedra
inda falem de nós...

Antonieta Borges Alves
in Lírios de Pedra

junho 01, 2012

RAINER MARIA RIKE


“A saudade é isto: viver nas ondas
E não ter pátria no tempo.
E desejos são isto: diálogos baixos
De horas diárias com a eternidade.

E a vida é isto: até que de um ontem
surge a mais solitária das horas
Que, sorrindo diferente das outras irmãs,
Vai calada ao encontro do eterno”.

Rainer Maria Rilke

O MUNDO ESTAVA NO ROSTO DA AMADA



o mundo estava no rosto da amada
e logo converteu-se em nada,
em mundo fora do alcance, mundo-além.
Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.
o mundo estava no rosto da amada

o mundo estava no rosto da amada
e logo converteu-se em nada,
em mundo fora do alcance, mundo-além.
Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

Rainer Maria Rilke
(Tradução: Augusto de Campos)

O CISNE

Este cansaço de passar como que atado a coisas que ainda não foram feitas, parece o caminho incriado do cisne. E o morrer, esse desapegar-se do fundo em que diariamente estamos, seu tímido abandonar-se às águas que mansamente o acolhem e por serem felizes e já passadas, onda a onda, sob seu corpo se retraem; então, firme e tranqüilo, com realeza e crescente segurança, abandona-se o cisne ao deslizar. Rainer Maria Rilke

maio 31, 2012

SOLIDÃO



SOLIDÃO
(Luiz Carlos de Oliveira)

Pedra em forma de grito,
que silencia
na turbulência vaga...

Eco perdido nas horas
que sangram...

Sombra refletida na alma.

Dor profunda.

Fuga no apalpar,
desolação no sentir,
inquietude.

Da vasta impressão,
o nada,
ante a imensidade sem resposta...

Vazio.

TU ÉS A ESPERANÇA


Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem
fundo, como quem bebe a madrugada.


Eugénio de Andrade,
In: 'As Mãos e os Frutos'

VINHO

A TAÇA foi brilhante e rara,
mas o vinho de que bebí
com os meus olhos postos em ti,
era de total amargura.
Desde essa hora antiga e preclara,
insensìvelmente descí,
e em meu pensamento sentí
o desgôsto de ser criatura.
Eu sou de essência etérea e clara:
no entanto, desde que te ví,
como que desapareci...
Rondo triste, à minha procura.
A taça foi brilhante e rara:
mas, com certeza enlouquecí.
E dêsse vinho que bebí
se originou minha loucura.
Cecília Meireles ,
in Viagem