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abril 20, 2012

De quem é a culpa?


Nasci em 1950. Claro que esperava o ano 2000 cheio de coisas impensadas, mas nem vi tanta diferença. Na década de 60, na minha cidadezinha de interior, lembro-me que havia uma senhora separado por adultério. Era de família importante, rica, tinha dois filhos. Um dia, tentou entrar no clube da cidade, pela manhã, para os filhos verem a festinha de carnaval, e foi barrada!
Comum também era que, se uma garota perdesse a virgindade o pai arranjava um casamento, com o “autor” ou qualquer outro, pois ela corria o risco de terminar “fichada” como prostituta.
Eram coisas que me surpreendiam já naquela época.
E hoje me choca profundamente ver mulheres sendo apedrejadas, ou enroladas até aos pés em longas roupas, as vezes sem mostrar os olhos sequer.
Não me cabe julgar religião ou aspectos culturais, mas me choca. E não entendo porque elas não lutam!
Aqui no Ceará, nordeste do Brasil, todo dia morrem mulheres assassinadas por quererem a separação. Verdadeiras tragédias.
E ainda existem sociedades que não aceitam mulheres. Em pleno século XXI, literalmente fechadas. E, a exemplo do antigo templo dos judeus, tem o lugar dos homens e o lugar separado para as mulheres se reunirem.
Por que elas aceitam isso? Por que ficam por lá, fazendo um papel ridículo, trabalhando por uma causa que nem sabem qual é?
Jesus, quando morreu, o véu do santuário se rasgou, “de cima para baixo”, uma tarefa impossível a homens, e com isso, ele deu acesso ao Santo dos Santos à todas as pessoas, homens e mulheres e não só ao sacerdote.
Somos todos livres na presença de Deus, então por que aceitar essa separação de homens?
De quem é a culpa de existir ainda isso? Nem preciso responder!

regina helena

abril 11, 2012

Al amor



Al amor

Cuántas veces, amor, por retenerte
puse a tus pies mi juventud rendida.
Y cuántas a pesar de estar herida
te la volví a entregar por no perderte.

Cuántas veces también, altivo y fuerte,
por alcanzar la gracia prometida,
me batí frente a frente con la vida,
o me hallé cara a cara con la muerte.

Y hoy, cuando mi ilusión vuelve a tu lado
trayéndole al misterio de tu hechizo
la pluma azul del pájaro encantado,

torna otra vez a mi pupila el lloro
al mirar desde el puente levadizo
que está cerrado tu castillo de oro.


Alberto Ángel Montoya



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abril 08, 2012

NÃO ENCONTRASTE A RUA



NÃO ENCONTRASTE A RUA

Não encontraste a rua
Não encontraste a casa
Não encontraste a mesa
No café que alguém
Por engano indicou.

Mas a cidade é esta
E não outra

Não encontraste o rosto

O anel caiu
Ninguém sabe aonde.


Alberto de Lacerda



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abril 07, 2012

Solidão


Solidão
(Juan Ramón Jiménez)

Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário!

Juan Ramón Jiménez,
em "Diario de Un Poeta Reciencasado"

abril 06, 2012

POEMA RECLUSO


POEMA RECLUSO
(Genaura Tormin)

No horizonte,
Moribundo se curva o sol poente.
Um dia a mais passou sem que eu te visse.
O poema recolheu-se medroso
Ao frio de minha tristeza.
Tudo extremamente só!

Os momentos se arrastam
E a nossa música agoniza,
Chegando a ferir os meus ouvidos.
Há um marasmo no ar.
Um gosto fúnebre,
Uma carência dolorida.
Tudo tão eterno, feito a saudade tua.

Não há aroma de flores,
Nem cantar de pássaros...
O vento está parado,
Nem sibila a ramagem lá fora.
Apenas a companhia de fantasmas.

Parece o fim!
Faz frio na alma,
E congelado está o amor
Nos compartimentos de mim.

março 28, 2012

A flor tem linguagem...



A flor tem linguagem de que a sua semente não fala
A raiz não parece dar aquele fruto
Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem
Retirada a linguagem
A semente é igual a flor
A flor igual a fruto
Fruto igual a semente
Destino igual a devir.
E era o que se pedia: igual.


Almada Negreiros

março 22, 2012

RENÚNCIA



RENÚNCIA

Renunciar. Todo o bem que a vida trouxe,
toda a expressão do humano sofrimento.
A gente esquece assim como se fosse
um vôo de andorinha em céu nevoento.

Anoiteceu de súbito. Acabou-se
tudo... A miragem do deslumbramento...
Se a vida que rolou no esquecimento
era doce, a saudade inda é mais doce.

Sofre de ânimo forte, alma intranqüila!
Resume na lembrança de um momento
teu amor. Olha a noite: ele cintila.

Que o grande amor, quando a renúncia o invade
fica mais puro porque é pensamento,
fica muito maior porque é saudade.

Olegário Mariano





Retrato de Olegário Mariano, por Cândido Portinari

OLEGÁRIO MARIANO
(1889-1958)

Olegário Mariano Carneiro da Cunha, poeta, diplomata, deputado federal e constituinte, nasceu em Recife, Pernambuco, Estreou na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, em 1911. Segundo os biógrafos da Academia Brasileira de Letras, da qual foi membro, “sua poesia lírica é simples, correntia, de fundo romântico, pertinente à fase do sincretismo parnasiano-simbolista de transição para o Modernismo. Ficou conhecido como o "poeta das cigarras", por causa de um de seus temas prediletos


Obra literária: Angelus, 1911; Sonetos, 1912; Evangelho da sombra e do silêncio, 1912; Água corrente, 1918; Últimas cigarras, 1920; Castelos na areia, 1922; Cidade maravilhosa, 1923; Ba-ta-clan, 1924; Canto da minha terra, 1930; Destino, 1931; Teatro, 1932; Vida, caixa de brinquedos; O enamorado da vida, 1937; Da cadeira 21, 1938; Quando vem baixando o crepúsculo, 1945; A vida que já vivi,1945; Cantigas de encurtar caminho, 1949; Tangará conta histórias, 1953; Correio sentimental; Toda uma vida de poesia, 2 volumes, 1957.

Fonte: Site Antônio Miranda

março 21, 2012

Para os erros há perdão...


"Para os erros há perdão; para os fracassos, chance; para os amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. O romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."

Luis Fernando Veríssimo

março 20, 2012

O que tem de ser...




"O que tem de ser, tem muita força. Ninguém precisa se assustar com a distância, os afastamentos que acontecem. Tudo volta! E voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando tem de voltar, voltam quando é pra ser. Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde. Não se perca, viu?"

Caio Fernando Abreu

Às vezes é preciso




"Às vezes é preciso diminuir a barulheira, parar de fazer perguntas, parar de imaginar respostas, aquietar um pouco a vida para simplesmente deixar o coração nos contar o que sabe. E ele conta. Com a calma e a clareza que tem."
Caio Fernando Abreu

março 14, 2012

E quando a tempestade tiver passado...




“E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa: Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.”

(Haruki Murakami)

março 13, 2012

UM PÔR DE SOL




UM PÔR DE SOL

A natureza se transforma lenta!
Fica o ocaso mais rubro! Mais bonito!...
O sol, na sua marcha sonolenta,
Mergulha na janela do infinito!

Tudo é silente! Nem sequer um grito
Se escuta pela tarde pardacenta...
O mundo todo torna-se esquisito
E a noite desce plácida e friorenta!...

O sol com os raios seus já sem fulgores,
No desespero dos seus estertores,
Solta um beijo de luz, tinge o arrebol!...

O poeta fica no delírio imerso!
Contemplando os mistérios do universo
No quadro divinal de um por de sol!


Jansen Filho
In: Obras Completas

março 12, 2012

Jardim Perdido




Jardim Perdido

Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão,

A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava,
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.

A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidade e suspensão.

Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.

Sophia de Mello Breyner Andresen

março 11, 2012

LÁGRIMAS OCULTAS




LÁGRIMAS OCULTAS

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

março 09, 2012

No momento





No momento em que o amor enraíza
Deixa-se de ser o que é
Para viver pela pessoa amada.
Tanto,
que onde quer que se vá,
o que quer que se faça,
há sempre um quê de seu gosto
apontando o caminho a seguir,
o que fazer...


Luiz Carlos de Oliveira

março 07, 2012

MADRUGADA


MADRUGADA

No seu leito de plumas alvejantes 
 Feito de nuvens brancas de algodão 
 O sol ainda dorme repousante 
Mergulhado na paz da imensidão.

O silêncio é completo. E ofegante 
 A madrugada se estremece, então;
 No sepulcral silêncio extasiante 
 Nem um gemido ecoa na amplidão.

A estrela Dalva vagarosa, lenta, 
 Brilha do espaço sideral da altura 
 Num gesto vislumbrante de magia.

E nesta apoteose se apresenta, 
 Da passarada, um coro de doçura 
 Que vem saudar o despertar do dia.

Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)

março 06, 2012

Fosse a pedra só...





[...]Fosse a pedra só, e seria desolação, deserto. Mas a vida cresceu sobre a pedra – e vieram os pássaros, as borboletas, as abelhas, os pequenos animais. Coitada da pedra! É inútil reclamar. A vida e a beleza crescem sobre ela, a despeito da sua mesmice pétrea. As sementes – frágeis - são mais fortes que a pedra – dura.

Rubem Alves

janeiro 15, 2012

...e ela ainda está lá


...e ela ainda está lá, meu pai,
com todo o brilho de antes,
como eu a via, há tanto tempo atrás.

Me fez lembrar meu caderninho,
onde escrevia sonhos e rabiscava ilusões.

E você estava lá. Na nossa vida.
Uma presença tão grande,
como grande hoje é a saudade.

De repente, olho para o céu,
e vejo aquela estrela brilhante -
aquela mesma - que me fez sonhar.

... e hoje, meu pai, acordei de vez:
- ela é a mesma! Sempre esteve ali.

Nós é que mudamos. Você partiu. A ficha caiu.
O tempo está no mesmo lugar e nós...

...passamos por ele, perdendo pelo caminho
o encanto, o brilho e os sonhos.
E encontrando no hoje, só saudade.


Regina Helena

janeiro 08, 2012

Vidas Paralelas





Vidas paralelas

Seguias o teu caminho e eu, o meu:
- Direções opostas, linhas paralelas...
O meu amor te chamou,
e vieste viver comigo,
na loucura do impossível,
essa paixão insana...

Como em imagem de sonho,
eu te vi partir.
Sair da minha vida e voltar à realidade,
ao lugar que é teu...
Embora como louco o meu amor gritasse,
eu não pude te conter!

Seguiste o teu caminho e eu, o meu:
- Direções opostas, linhas paralelas:
“Infinitamente separados”!

Regina Helena

janeiro 04, 2012

MEU CORAÇÃO


MEU CORAÇÃO

O triste coração que eu trago é tão velhinho
E tanto tem amado, e tem vivido tanto,
Que não suporta mais o fogo de um carinho,
Nem de outro coração o cálido quebranto.

Às vezes, alta noite, ouço-o chorar sozinho,
Do meu peito escondido ao último recanto,
Assim como quem sente a dor de algum espinho
Que o fere, e quer leni-la, ao afoga-la em pranto.

É ele! É o coração tristíssimo, que chora
De saudade de alguém, que o fez antegozar
Um grande, um santo amor, e que se foi embora.

E escuto-o palpitar, tão leve, que parece
Um ser que sente frio, e treme, a murmurar,
Num soluço infinito, os restos de uma prece...

Alceu Wamosy
In: Poesia e Prosa



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