Seja bem-vindo. Hoje é

setembro 29, 2014

setembro 27, 2014

POR AÍ ALÉM



Deixa um momento o asfalto, vem comigo,
entre jogos de sombra e claridade
conhecer a cintura da cidade.

Respira a plenitude do silêncio
destes montes e montes sucessivos
que ignoram a dor dos seres vivos.

Mergulha no mistério vegetal
da mata exuberante, onde as lianas
e as bromélias se calam, soberanas.

E na imobilidade do saveiro
diante da igrejinha, vai sentindo
o que é doçura e paz na hora fluindo.


Carlos Drummond de Andrade
in ‘Poesia Errante ‘

setembro 26, 2014

Súplica



Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga
In ‘Poesia Completa’



Demissão



Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos se dependentes.

José Saramago,
in "Os Poemas Possíveis" 

 

abril 07, 2014

ESTOU SEMPRE EM VIAGEM



Estou sempre em viagem.
O mundo é a paisagem
que me atinge de passagem

Helena Kolody
in "Viagem Submersa"





COLHENDO



Quando não temos um motivo para sorrir
O melhor é colher flores.
Somente elas entendem..
O porque do silêncio
Abrace sua dor com sabedoria,
colhendo flores no campo..

Glória Dantas

fevereiro 21, 2014

XII




Quero viver nesta terra como a árvore
Frutificar a árvore como um tempo.
Purificar-me no tempo como o girassol
que do tempo tem a haste e o farol.

Quero a essência da essência,
a que fixa ao forte
para que o forte sobreviva.

Quero brincar neste beco como a roda
que se caminha
e se repete.

E repetindo é roda
e barca ao mesmo tempo
e coração que aguarda
e sofre morrer docemente.

Quero serenar a ternura
e distribuir o amor demasiado
em destino para toda multidão.

Lindolf Bell
in Ciclos

ANDORINHAS ESCREVEM NO AR




Guardo da infância
andorinhas escrevendo
no ar


Hoje
recolho ainda
andorinhas escrevendo
no ar


Andorinhas
não publicam
nem declamam
o que escrevem
no ar


Entendi a escrita minha
ao entender a escrita da andorinha



Lindolf Bell
In: O Código das Águas




novembro 18, 2013

para Andréa

para Andréa
(regina helena)

tão pequenina, meu anjo, onde andas?
te vi tão pouco, apenas um momento
e então, te levaram para longe de mim.

precisavas respirar e eu,
ali fiquei, olhando o teu vulto e sem saber,
que era para nunca mais te ver.

céus, estrelas, outras dimensões,
universos paralelos, dobras no tempo e,
quem sabe em um momento, ainda aqui,
se abra uma portinha, meu amor...

...e a gente possa te ver mais uma vez
viver o sonho, acalentar no peito,
nosso primeiro amor, que veio aqui,
como raio de luz, de intenso brilho
...e se apagou.

novembro 13, 2013

Apenas uma chama…

Apenas uma chama…

Uma estrelinha cadente
brilhou por instantes em nosso Céu
Irradiou sua luz, nos deu paz,
nos encheu de esperanças,
deu sentido à nossa vida,
motivos para viver... e Passou!

Refulgiu e apagou na mais longa
e escura noite das nossas vidas.

Levou com ela a esperança,
entristeceu nossa casa,
e calou nosso canto!

Era apenas uma chama...
Tão pequenina e frágil,
mas preciosamente inesquecível.

Estava no nosso destino perder esse sonho,
longamente acalentado no peito...

O seu Céu não era o nosso,
e ela foi brilhar em outros horizontes...
Ou quem sabe ainda,
foi chamada para compor junto aos anjos,
um coro ao Criador.

outubro 16, 2013

XI



O pássaro
conhece o horizonte.
A redondez
da terra.
E a primavera que anuncia
no canto solitário.
E na espera.

O pássaro não sabe
que eu sei, solitário,
atrás da vidraça
estas coisas que ele sabe.

Mas o pássaro
sabe de coisas
que nunca saberei
atrás das vidraças.


Lindolf Bell
In Código das águas 






outubro 10, 2013

DESPEDIDAS



Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

Affonso Romano de Sant´Anna



Agradeço sua visita. 
Volte sempre e comente!

ASSOMBROS




Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant'Anna



Agradeço sua visita. 
Volte sempre e comente!

DÁ-ME A FESTA MÁGICA




DEUS – e de onde é que tiras para acender o céu
este maravilhoso entardecer de cobre?
Por ele soube encontrar de novo a alegria,
e a má visão eu soube torná-la mais nobre.

Nas chamas coloridas de amarelo e verde
iluminou-se a lâmpada de um outro sol
que fez rachar azuis as planícies do Oeste
e verteu nas montanhas suas fontes e rios.

Deus, dá-me a festa mágica na minha vida,
dá-me os teus fogos para iluminar a terra,
deixa em meu coração tua lâmpada acendida
para que eu seja o óleo de tua luz suprema.

E eu irei pelos campos na noite estrelada
com os braços abertos e a face desnuda,
cantando árias ingênuas com as mesmas palavras
com que na noite falam os campos e a lua.


Pablo Neruda
Tradução: José Eduardo Degrazia 

outubro 09, 2013

POEMA DA TARDE



A tarde move-se entre os galhos das minhas mãos.
Uma estrela aparece no fim do meu sangue,
Minha nuca recebeu o hálito fino de uma rosa branca.
Todas as formas servem-se mutuamente,
Umas em pé, outras se ajoelhando, outras sentadas,
Regando o coração e a cabeça do homem:

E dentre os primeiros véus surge Maria da Saudade
Que, sem querer, canta.


Murilo Mendes

outubro 08, 2013

CANTATA VESPERAL



CERRAI-VOS, OLHOS, que é tarde, e longe,
E acabou-se a festa a festa do mundo:
Começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
Perdem-se; e vão fugindo em mármore
Cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
Nem há mais vozes que se entendam
Nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
Sem esperanças de endereços.


Cecília Meireles
In Retrato Natural






outubro 07, 2013

DRUMMOND



"Sentimos saudade de certos momentos da nossa vida 
e de certos momentos de pessoas que passaram por ela."

Carlos Drummond de Andrade


MIA COUTO



"Quando chegas 
já não sou senão saudade 
e as flores 
tombam-me dos braços 
para dar cor ao chão 
em que te ergues..."

Mia Couto

DA CERTIDÃO DE NASCER




Nasci onde?
Nasci onde a geografia se faz de sentimento
Ali nasço
Ali nasço ainda.
Cada manhã.
Em cada manhã de medo.
Arremedo.
Degredo a degredo.
Em cada impulso, incompetência.
Na eterna e suave ironia do destino
de mais sentir que saber.
De saber
apenas sei
de quantas palavras
se faz a canoa de afetos.
Embora caminhe torto
por sonhos retos.
Muito aprendi
da palavra engolida em seco.
E da palavra abatida
por palavras de equívoco
e sutis alvenarias de cinismo.
Permaneço aqui
mesmo assim.
Nasço onde a geografia se faz de sentimento.
Entre princípio e fim de mundo.
Aurora a aurora.
Segundo a segundo.


Lindolf Bell,
in O Código das Águas


outubro 06, 2013

SAUDADE


SAUDADE

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda