23 de mar de 2012

TUAS CARTAS


Tuas Cartas

Tuas cartas rasguei uma por uma:
Cento e quatorze páginas e tiras
De confissão e juramento: em suma,
De perfídias, de enganos, de mentiras.

E chorei, ao rasgá-las! Tinha alguma
Cousa implorando contra as minhas iras
Em todas; e, hoje, irritação nenhuma
Neste peito verás, por mais que o firas.

Eram mentiras, eu bem sei... No entanto,
Cada rompida página era um cardo
Que enterrava do peito em cada canto.

E eis porque, pelo chão, após instantes,
Os pedaços juntei... e agora os guardo
Com mais amor do que os guardava dantes!


-HUMBERTO DE CAMPOS-
In 'Poesias Completas’ (1933)

Um comentário:

  1. Lindo poema!
    Eu também rasguei cartas! Muitas, maços... E como me doeu! Eram pedaços de mim que eu expurgava, lançando-os ao esquecimento. Mas tinha que ser assim!
    Esse versejar voltam-me ao passado. Gosto também de J.G. de Araújo Jorge.
    Meu Deus, como o tempo passa e leva consigo tudo: os enleios, as formas... Até a natureza do meu tempo parecia diferente. Sorrisos escancarados por os lados!
    Tudo era felicidade!
    Agora é também, mas sem espera, sem ansiedades e surpresas. Tudo mais tranquilo manso... Uma felicidade de outra forma, mais de comunhão de almas. Viche!
    Beijo grande

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