30 de out de 2010

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

(Cecília Meireles)

2 comentários:

  1. Curiosamente este belo poema da Cecília fez-me lembrar Alberto Caeiro, um dos heterónimos de Pessoa. E, repetindo a leitura, a impressão perdura...

    Beijo :)

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  2. AC,

    Grata por sua visita e comentário...sim, Cecília é repleta de misterios e elegância em sua forma de poetizar...

    Grande beijo!!

    Reggina Moon

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